O registro que se faz necessário hoje, para que não se perca no tempo a clareza nas memórias, conta como se deu o início de uma divulgação despretensiosa, que tomou corpo e correu o Brasil, acerca de personagens históricos das nossas Minas Gerais. De fato, os personagens são mais interessantes que o fato. No centro da história se encontra o nosso amigo Jovanilson, um sujeito que nos ensina “sem querer” a gostar da vida e das pessoas. Ele, uma versão tipicamente norte-mineira do
Riobaldo de Guimarães Rosa, com seu jeitão simples carrega o orgulho e o não-abrir-mão de ser sertanejo, encantando os que o cercam com o seu singelo jeito bruto de ser e mostrando ao mundo o que é o tal do carisma.
Tudo foi contado em Montes Claros, numa noite quente de carne de sol com mandioca e cerveja gelada. O causo não causou espanto. Em conversa de ilustres, homens de poder e prestígio rodeados pela malandragem norte mineira, outro resultado não se podia esperar.
Presentes, representando as tais pessoas ilustres, estavam o Sr. Cesar Garcia, homem de peso, Vice Presidente da Rede Intertv – emissoras afiliadas Rede Globo – e sua digníssima senhora, ambos provenientes de São Paulo; o Gerente Regional da emissora Intertv Grande Minas, Sr. Fábio Braidatto, homem sério, que atualmente sustenta sucesso nos gramados do Max-Min Clube, também este advindo de São Paulo; e o Gerente Comercial desta mesma emissora, Sr. Annibal Gonçalves, palestrante requisitado, que embora seja um Carioca Bossa Nova dos mais ilustres, carrega no currículo uma brilhante carreira “nômade” – toda dedicada à televisão brasileira – e coleciona títulos de cidadão honorário de mais de oitenta cidades no Brasil e no mundo afora.
Representando a malandragem norte mineira – e para garantir a fidelidade do registro é necessário que se faça a citação dos apelidos, já que é sabido que malandro se conhece por apelido – se faziam presentes eu, então reles Executivo de Contas da empresa citada, vulgos Gui e Filhô; Rogério Silva, vulgos Paraná e Filhô, também reles “Contato” e Pecuarista, sujeito afamado pelo talento na arte da conquista das mulheres, foi enviado à malandragem norte mineira em situação de “fuga-de-noiva” do interior do Rio de Janeiro, mas é proveniente da famosa Quinta do Sol – cidade importante da zona rural do estado do Paraná; e Jovanilson Silva, vulgos: Don Juan do Sertão, Jojô, Jotinha, Tranquera, Boizão Empacado, Piu e Filhô, este proveniente da famosa Caçarema, distrito mais importante do município de Capitão Enéas, protagonista maior desta história, personagem muito querido no grande Sertão Norte Mineiro.
A turma dos ilustres, embora suas posições recomendassem uma certa distância dos pobres incautos em sua companhia, mostrou a simplicidade que sempre se fez presente no seu convívio com os subordinados. Pessoas cultas, educadas e inteligentes, se juntaram mas não se misturaram, como disse o ilustre carioca que estava presente. A turma dos malandros, como de costume, se sentiu à vontade, bebendo com classe, com um ar
blasé de quem tem
savoir faire e está de bem com a vida.
Pois em poucas horas o papo passou pela política, futebol, televisão, economia e cultura. A turma dos ilustres relembrou os seus velhos amigos dos bons tempos de TV Tupi, de TV Globo e de Rádio Globo, personalidades importantes que brilharam no auge do glamour da TV e do Rio de Janeiro, no Brasil de muitos Janeiros atrás. Para a turma dos Malandros, o silêncio de Jotinha era motivo de preocupação: Quando resolvesse falar, coisa boa não sairia. Paraná aproveitou o papo sobre Pecuária, adiantou-se e discorreu sobre sua criação de gado no norte de Minas. Ficamos orgulhosos.
O papo corria solto, alegre, embalado nas piadas do Sr. Annibal. Aproveitei a deixa e participei da conversa, quando a Ilustre Senhora começou a falar de Minas. Relatara, com o apoio empolgado do marido, o encanto que adotaram pela riqueza cultural e historiográfica do nosso estado. Falamos de
Grande Sertão: Veredas, de Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey e Mariana. Falamos das obras do Aleijadinho em Congonhas.
Jotinha permanecia calado, feito coruja, observando a todos. Dividíamos o mau presságio até que o assunto parou em Diamantina. A digníssima senhora, a despeito da nossa apreensão em torno do sujeito calado que já sinalizava o impulso de se manifestar, falou sobre Juscelino. Disse que o seu próximo destino em Minas seria o lugar onde JK nasceu, conheceria sua casa, suas praças, seus jardins, ruelas e becos que eram palco das grandes serestas.
Foi nesse momento que ocorreu a fatídica interpelação de Jotinha. Com firmeza na voz, semblante sério e cabeça erguida ele abriu parênteses nas palavras da Ilustre.
- Quem foi que disse que Juscelino é de Diamantina? A partir daí o sujeito emendou frase-em-frase e se tornou o centro das atenções. Todos se viam extasiados com suas palavras, atônitos, em silêncio, observando as novidades que ouviam. Nós, da turma dos Malandros, segurávamos o riso, desesperadamente. A revelação de Jotinha dizia que JK era, na verdade, nascido em Caçarema. Por lá fora criado até os sete anos de idade, quando foi levado para Diamantina graças às estripulias amorosas de sua mãe. De Diamantina JK teve o destino que todos nós conhecemos, até ser consagrado como um dos mais importantes homens da nossa história política.
Atualmente, sabe-se que a versão de Jovanilson – o Jotinha – foi levada para o Rio de Janeiro e São Paulo e correu o Brasil. Deste dia em diante, em várias outras rodas de “ilustres” pelo Brasil afora, não faltará quem defenda a verdadeira saga de JK, o menino que saiu de Caçarema para ganhar o mundo.