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25 dezembro 2008

O que desejo no próximo ano

Desejo que no próximo ano todas as pessoas adultas - mesmo as iletradas - leiam Saint Exupéry, e se convençam, definitivamente, de que não são eternamente responsáveis pelas coisas que cativam. 

Desejo que no próximo ano todos os meus amigos ateus sejam convertidos e salvem suas almas, já que as mentes estão fodidas. 

Desejo que no próximo ano o Latino se torne ator de novela da Band, e se despeça do mundo da música sem o lançamento de um novo CD. 

Desejo que os políticos "menores" se explodam em manchetes e escândalos que revelem toda a sujeira escondida, com sucesso, em mais um ano que se completa. 

Que a crise global não seja mais que uma marolinha. 

Que todos os mineiros conheçam Guimarães Rosa e Paulo Mendes Campos. 

Que todos os humanos da Terra conheçam Machado de Assis. 

Que os bares e restaurantes não nos sirvam arroz dormido, whisky falsificado, nem cerveja 'um pouco gelada'. 

Que Jotinha saia da obesidade. 

Que todas as noras queiram bem às suas sogras. 

Que sejamos mais fiéis aos nossos amigos e mais amigos de nossas mulheres. 

Que os aventureiros no amor ouçam o grande Antônio Maria - o poeta, não o padre - e aprendam que é preciso amar "uma" mulher: "Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno". 

Que a saúde seja o primeiro pedido atendido das nossas orações. 

Que as famílias se reúnam em harmonia. 

Que os nossos negócios entrem no eixo da prosperidade. 

Que o nosso conceito de sucesso não se resuma aos extratos bancários. 

E que no próximo ano todos acreditem no poder de fazer grandes coisas, desde que cultivemos grandes virtudes. Isso é tudo o que desejo no próximo ano.

01 dezembro 2008

A dor da perda

Aqui vai uma homenagem ao meu amigo Danilinho... com uma humilde reflexão sobre um momento verdadeiramente triste pelo qual passamos!



Danilo Campos não é o tipo de cara que você simplesmente ama ou odeia. Como ocorre com quase todas as pessoas polêmicas, é possível amá-lo e odiá-lo ao mesmo tempo, no mesmo dia, sem abrir mão de dizer-lhe, carinhosamente, o quanto ele é chato. Danilo é do tipo de pessoa a quem não se pode fazer qualquer comentário, sobre qualquer assunto, sem esperar de rebate uma opinião contrária. O sujeito é o exemplo morto-vivo do que se pode chamar: “do contra”. E a coisa piorou quando ele descobriu que algumas pessoas (na verdade muitas pessoas) acham graça nisso. Elogie uma mulher ao Danilo, e ele imediatamente descobrirá um dente torto ou uma leve perda do paralelismo entre os olhos da mesma. Em seguida a chamará de vesga. Confidencie ao Danilo suas gabolices de sua própria boemia (ou balada, para os mais jovens), e ele o dirá o quanto você é canalha, fútil e cretino. E o abraçará com todos os seus abraços.

Mas Danilo é o sujeito com quem se pode contar. Companheiro e voluntarioso. Prestativo e teimoso. Seus gestos carinhosos sempre contrastaram com a acidez das suas palavras. Seu maior defeito sempre foi carregar o hábito de dizer a verdade que se esconde por trás das coisas que - às vezes - não queremos ver, e que por isto, não vemos.

Era uma manhã de sábado quando recebi um telefonema incomum. Do outro lado a Dona Fátima, mãe dos meus amigos Leandro e Leonardo. Suas primeiras palavras me deixaram confuso, e as próximas foram me deixando com um frio que nunca havia sentido, nem no alto do vulcão Cotopachi. Dona Fátima me trouxera a notícia de que Danilo sofrera um grave acidente de automóvel nas proximidades de Sete Lagoas, ao qual não teria resistido. Leandro e Leonardo não estavam em condições de pronunciar palavra. A família do morto já teria sido avisada. A última notícia que se tinha era a de que todos aguardavam a liberação do corpo pelo IML de Sete Lagoas. Conheci nesse momento a força e o peso da angústia. No meu peito pulsava uma dor aguda que irradiava para a cabeça e tornava quente o meu rosto. As lágrimas desciam involuntariamente, e o desespero não me permitiu manifestar qualquer resposta à Dona Fátima. Ao meu redor, meus pais e irmãos olhavam-me com todo o desespero com que se perde a quem se ama. Larguei o telefone em descontrole. Com as mãos na cabeça sentei-me num banco de madeira sem responder aos que me cercavam com as perguntas óbvias. Dizia, repetidamente, afogando em lágrimas, as palavras mais sinceras que já saíram da minha boca: - “Perdi o meu amigo”. Assim fui apresentado à dor da perda.

Mesmo após muitas horas de desespero, incrédulo, eu ligava, insistentemente, para o celular de Danilo. Todas as minhas ligações – inúteis – me faziam pensar na vida. O único Japonês preto do planeta era meu amigo e estava morto. Tudo perdeu o sentido. A vida, por instantes, pareceu-me um medíocre jogo de idiotas disputando um prêmio desconhecido. De que valem todas as coisas, se tudo se perderá repentinamente, sem sequer uma última chance de desfrute ou despedida, sem direito de defesa? E a cada telefonema de outro amigo derramado em prantos, a dor se fazia maior. As nossas lembranças se tornavam vivas, com palavras, sons, lugares, sorrisos e lágrimas.

Mas as informações sobre o tal IML não se confirmavam. Os colegas da Cemig, que continuavam sem saber o paradeiro de Danilo, tampouco conheciam seus planos de viajar a Sete Lagoas. Por toda a cidade a notícia se espalhou rapidamente, e milhares de pessoas, conhecidas ou não, choravam a perda de um sujeito muito chato. Sua mãe, amparada pela família, mostrava não ter mais forças para respirar a vida. Foi quando o desespero encontrou a esperança.

Meu telefone tocou e senti o medo exalar ao ver o visor do aparelho. O toque do telefone pulsava acelerado, ritmando-se com os meus batimentos, enquanto o nome de Danilo piscava na tela. Atendi e ouvi a sua voz, como se pudesse ver o seu tradicional sorriso irônico:

- “Quem me matou aí moss?” A notícia de sua morte já havia chegado até o morto. Tudo não passou de um trote, um infeliz trote, feito por um outro amigo (muy amigo) seu, que por pouco não precisou sair fugido da cidade. Não obstante a reconhecida fama de farrista e cachaceiro do morto, toda a situação favorecia a versão do trotista.

Pois eis a história do dia em que perdemos um amigo e o tivemos de volta. Tivemos o privilégio de cessar as nossas lágrimas com um sorriso doce e de várias tonalidades, ao mesmo tempo em que nos era dado o ombro amigo pelos que juntos sentiam a nossa dor. Que não seja verdade e que a pessoa reapareça com um sorriso irônico. Esse é o desejo, inalcançável, de todos que perdem uma pessoa amada.

Danilo teve o privilégio de saber o quanto é amado por todos. E a morte, essa velha misteriosa que não avisa nem negocia, me mostrou, mesmo sem vir, o quanto somos frágeis diante de sua magnitude. Cruel. Irremediável. Não podemos enfrentá-la. Por isso é melhor mesmo acreditar que ela e a vida não são contrárias, são irmãs. Podemos apenas viver a nossa fragilidade, rezando aos céus para que ela tarde um pouco mais, e que quando vier, que venha de forma mansa, sem dores nem humilhações. Que ela nos encontre cercado por amigos, bem longe dos CTI's. E que a vida, sua irmã, cuide bem dos que nos amam, e ficam.

18 novembro 2008

Nos Montes Claros de hoje

Das coisas boas da vida, uma das melhores é o papo no buteco com os amigos. De um desses surgiu a idéia de comentar a vida e as transformações que nos cercam, algo que caminha junto com a razão de ser desse blog. Como comentarista do cotidiano, trago em meu humilde breviário de histórias algumas observações acerca da nossa Montes Claros de hoje. Uma visão que abriga sensações dispersas, que se confundem entre o otimismo e o pessimismo. Que comenta o orgulho cívico pelo progresso, pela crescente verticalização da nossa cidade, dando menos atenção à sua periferização, ao desassossego recente das suas ruas, becos e praças. Não olhei fundo nas miudezas e circunstâncias da vida montes-clarense, mas decidi trazer uma modesta lembrança das mudanças mais recentes ao nosso redor, muitas às quais têm passado despercebidas aos nossos olhos.

Começo informando aos navegantes que Montes Claros perdeu a timidez. O “complexo-de-pobre” a que se sujeitava a Princesa do Norte não mais desanima os seus habitantes, embora muitos pessimistas da terra insistam em classificá-la como tal. Capitaneando uma população regional com mais de dois milhões de habitantes, Montes Claros respira ares de capital – porém com umidade relativa do ar na casa dos 10%, tipo deserto – e todos se orgulham da chegada do tão esperado progresso prometido. Desta vez não foi nenhuma Sudene. Vemos agora uma robusta indústria da Educação, um consolo providente e um belo modelo de salvação para os milhares de combatentes das batalhas dos vestibulares públicos. Temos agora várias facilidades, quero dizer Faculdades, para absorver a gigantesca demanda reprimida de jovens e adultos ávidos por conhecimento, diploma e emprego (não necessariamente nesta ordem), disponibilizando ao mercado profissionais de todas as áreas, de todos as classes e com todos os níveis de qualificação. O grande número de profissionais de alto nível trazido dos grandes centros – pelas grandes empresas – também contribuem, anônima e discretamente, para a formação dos jovens profissionais que conseguem a sua colocação (como exemplo este humilde escriba). É mão-de-obra super qualificada a serviço da formação de um povo ainda em aprendizagem.

A Educação e o Comércio tem sido a nossa alavanca. Embora a seca continue castigando todo o sertão norte mineiro – nos últimos 23 meses foram 15 de seca e chuvas abaixo da média histórica, contabilizando uma perda de 190 mil cabeças de gado nos últimos dois anos – a economia de Moc City cresce bem acima da média nacional. Num intervalo modesto de cinco anos aportaram-se grandes redes varejistas, seis novas concessionárias de veículos, várias lojas de grifes, uma grande usina de Biodiesel e três grandes traficantes de drogas de São Paulo e Belo Horizonte. A cidade ainda ganhou uma escada rolante, para gáudio dos moradores do Major Prates e adjacências. Coisas de cidade grande!

E se o progresso se instala, é comum que as pequenas empresas sofram com a concorrência. No setor de entretenimento (não resisto à citação do exemplo), os antigos pequenos cabarés deram lugar a uma grande casa noturna que atualmente colore as noites montes-clarenses. Diz-se que o recinto abriga damas-da-noite sofisticadas, provenientes de várias partes do país, dançarinas do “belo” Funk carioca e das “espetaculares” coreografias do Axé baiano. Entre as principais atrações, comenta-se sobre os shows protagonizados por belas mulheres envoltas em cobras de verdade. Tá vendo? Coisas de capital.

Já a política em Moc City, não mudou muito nos últimos cento e cinqüenta anos, exceto pela alteração no número de eleitores e candidatos. Os clãs: Pereira, Ribeiro e Athaíde continuam jogando a dança-das-cadeiras e, sistematicamente, os principais disputantes dos principais cargos eletivos são sempre descendentes sanguíneos ou apadrinhados desses mesmos grupos tradicionais. Exemplo fidedigno foi a disputa do último pleito, onde os três principais candidatos assim poderiam ser classificados. Seguindo a mesma tradição política nacional, nossos políticos montes-clarenses passam de inimigos mortais a grandes aliados com uma facilidade religiosa.

E como em todas as cidades onde o progresso se fez presente, seja pela importância política-econômica do município, por sua localização geográfica, ou pela simples concessão divina representada pela herança de riquezas naturais, é impossível, graças a costumeira ausência de políticas públicas, evitar que junto ao crescimento não venham a violência, a desigualdade social, o caos no trânsito e a corrupção. Tudo isso também se faz presente na Moc City de hoje.

Por fim, informo ao amigo leitor que nos Montes Claros de hoje:

Não se dança mais um bolero tocado ao vivo no Xandú; Não se joga mais pelada na rua; O Redondo agora é quadrado; A Open House virou buteco; O Pilangos não é mais bem freqüentado; O Ateneu continua abandonado; O Cassimiro continua respirando; O Bonga continua vivo; A Tia Ceiça desapareceu; Cerveja gelada ainda se bebe no Soró (e no Mapa de Minas); Sanduíche ainda se come no Tonis (e no Jordan); O vagão só existe em cima dos trilhos; Feijoada ainda se come no Tip-top; A política ainda se discute no Café Galo (e no Skema Kente); O almoço ainda se come no Automóvel Clube (e no Favoritto); O mirante do Sapucaia não é mais ponto de sarro; A Copa TV Montes Claros agora é Copa Intertv; O Instituto E. C. agora é São Mateus; A famosa equipe do Biotécnico agora é Unimax (Mas o Dêra continua lá); A festa do Pentáurea continua com a mesma fila; Não se joga na Flamarion Wanderley sem autorização da favela; Montes Claros agora tem Axé Montes; O Axé Montes tem ensaio; A prefeitura ainda faz o Carnamontes; O Carnamontes continua tendo assalto; Música se ouve no Curral do Boi; Cachorro quente ainda se come no Zé; Pizza se pede na Doratta; Coberta Suja agora é Cidade Industrial; O Ribatejo não tem mais o mesmo charme; A Fujinor virou hipermercado; Tião Prates não quebra mais o galho; Juninho Moleque ainda pega as menininhas; Feira se faz pela internet; Balada agora é que é no Armazém; Churrasco ainda se come no Chimarrão; Sorvete ainda se toma na Doçura; Os luais no Pentáurea não são mais na portaria (e o Seu Antônio continua lá); A Minas Brasil abre uma loja por mês; O Mackenzie continua revelando craques; Cabelo ainda se corta no Juarez; Barba ainda se faz no Moisés; Roupa ainda se compra na Dr. Veloso; Caderno ainda se compra na Palimontes; Livro não se compra mais na Espaço Aberto; O centro agora é filmado; O Marista não consegue mais lotar as suas turmas; Bibop continua pegando pênaltis; Na Escola Técnica não estuda mais filho de pobre; O campeonato do Max-Min agora tem craque paulista; Sinuca ainda se joga no Chicão; Janjão ainda tem dezoito anos; Jovanilson continua gordo; O Rio Vieira continua poluído; Os pequenos traficantes foram mortos pelos grandes; As ruas foram sinalizadas; As praças foram reformadas; Os parques foram abandonados; Os vereadores foram presos; e acreditem: Tadeu vai ser prefeito novamente.

02 novembro 2008

JK: De Caçarema para o Mundo

O registro que se faz necessário hoje, para que não se perca no tempo a clareza nas memórias, conta como se deu o início de uma divulgação despretensiosa, que tomou corpo e correu o Brasil, acerca de personagens históricos das nossas Minas Gerais. De fato, os personagens são mais interessantes que o fato. No centro da história se encontra o nosso amigo Jovanilson, um sujeito que nos ensina “sem querer” a gostar da vida e das pessoas. Ele, uma versão tipicamente norte-mineira do Riobaldo de Guimarães Rosa, com seu jeitão simples carrega o orgulho e o não-abrir-mão de ser sertanejo, encantando os que o cercam com o seu singelo jeito bruto de ser e mostrando ao mundo o que é o tal do carisma.

Tudo foi contado em Montes Claros, numa noite quente de carne de sol com mandioca e cerveja gelada. O causo não causou espanto. Em conversa de ilustres, homens de poder e prestígio rodeados pela malandragem norte mineira, outro resultado não se podia esperar.

Presentes, representando as tais pessoas ilustres, estavam o Sr. Cesar Garcia, homem de peso, Vice Presidente da Rede Intertv – emissoras afiliadas Rede Globo – e sua digníssima senhora, ambos provenientes de São Paulo; o Gerente Regional da emissora Intertv Grande Minas, Sr. Fábio Braidatto, homem sério, que atualmente sustenta sucesso nos gramados do Max-Min Clube, também este advindo de São Paulo; e o Gerente Comercial desta mesma emissora, Sr. Annibal Gonçalves, palestrante requisitado, que embora seja um Carioca Bossa Nova dos mais ilustres, carrega no currículo uma brilhante carreira “nômade” – toda dedicada à televisão brasileira – e coleciona títulos de cidadão honorário de mais de oitenta cidades no Brasil e no mundo afora.

Representando a malandragem norte mineira – e para garantir a fidelidade do registro é necessário que se faça a citação dos apelidos, já que é sabido que malandro se conhece por apelido – se faziam presentes eu, então reles Executivo de Contas da empresa citada, vulgos Gui e Filhô; Rogério Silva, vulgos Paraná e Filhô, também reles “Contato” e Pecuarista, sujeito afamado pelo talento na arte da conquista das mulheres, foi enviado à malandragem norte mineira em situação de “fuga-de-noiva” do interior do Rio de Janeiro, mas é proveniente da famosa Quinta do Sol – cidade importante da zona rural do estado do Paraná; e Jovanilson Silva, vulgos: Don Juan do Sertão, Jojô, Jotinha, Tranquera, Boizão Empacado, Piu e Filhô, este proveniente da famosa Caçarema, distrito mais importante do município de Capitão Enéas, protagonista maior desta história, personagem muito querido no grande Sertão Norte Mineiro.

A turma dos ilustres, embora suas posições recomendassem uma certa distância dos pobres incautos em sua companhia, mostrou a simplicidade que sempre se fez presente no seu convívio com os subordinados. Pessoas cultas, educadas e inteligentes, se juntaram mas não se misturaram, como disse o ilustre carioca que estava presente. A turma dos malandros, como de costume, se sentiu à vontade, bebendo com classe, com um ar blasé de quem tem savoir faire e está de bem com a vida.

Pois em poucas horas o papo passou pela política, futebol, televisão, economia e cultura. A turma dos ilustres relembrou os seus velhos amigos dos bons tempos de TV Tupi, de TV Globo e de Rádio Globo, personalidades importantes que brilharam no auge do glamour da TV e do Rio de Janeiro, no Brasil de muitos Janeiros atrás. Para a turma dos Malandros, o silêncio de Jotinha era motivo de preocupação: Quando resolvesse falar, coisa boa não sairia. Paraná aproveitou o papo sobre Pecuária, adiantou-se e discorreu sobre sua criação de gado no norte de Minas. Ficamos orgulhosos.

O papo corria solto, alegre, embalado nas piadas do Sr. Annibal. Aproveitei a deixa e participei da conversa, quando a Ilustre Senhora começou a falar de Minas. Relatara, com o apoio empolgado do marido, o encanto que adotaram pela riqueza cultural e historiográfica do nosso estado. Falamos de Grande Sertão: Veredas, de Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey e Mariana. Falamos das obras do Aleijadinho em Congonhas.

Jotinha permanecia calado, feito coruja, observando a todos. Dividíamos o mau presságio até que o assunto parou em Diamantina. A digníssima senhora, a despeito da nossa apreensão em torno do sujeito calado que já sinalizava o impulso de se manifestar, falou sobre Juscelino. Disse que o seu próximo destino em Minas seria o lugar onde JK nasceu, conheceria sua casa, suas praças, seus jardins, ruelas e becos que eram palco das grandes serestas.

Foi nesse momento que ocorreu a fatídica interpelação de Jotinha. Com firmeza na voz, semblante sério e cabeça erguida ele abriu parênteses nas palavras da Ilustre.

- Quem foi que disse que Juscelino é de Diamantina?

A partir daí o sujeito emendou frase-em-frase e se tornou o centro das atenções. Todos se viam extasiados com suas palavras, atônitos, em silêncio, observando as novidades que ouviam. Nós, da turma dos Malandros, segurávamos o riso, desesperadamente. A revelação de Jotinha dizia que JK era, na verdade, nascido em Caçarema. Por lá fora criado até os sete anos de idade, quando foi levado para Diamantina graças às estripulias amorosas de sua mãe. De Diamantina JK teve o destino que todos nós conhecemos, até ser consagrado como um dos mais importantes homens da nossa história política.

Atualmente, sabe-se que a versão de Jovanilson – o Jotinha – foi levada para o Rio de Janeiro e São Paulo e correu o Brasil. Deste dia em diante, em várias outras rodas de “ilustres” pelo Brasil afora, não faltará quem defenda a verdadeira saga de JK, o menino que saiu de Caçarema para ganhar o mundo.

08 outubro 2008

Coragem

Entre as coisas das quais me orgulho de meu pai, a principal é a coragem. Sujeito de inteligência rara, timidez polida, princípios inabaláveis. Gente do tipo que não olha de cima. Que trata homem como se deve tratar um homem. Que trata mulher como minha mãe quer, ou seja, não trata.

Mesmo Sociólogo e Economista, um sujeito bruto que pagou caro para se formar doutor na Faculdade da Vida. E que entre glórias e tropeços põe seus valores à frente na luta pelos seus. 

Pois foi assim que um dia ele decidiu empreender numa mudança radical em nossas vidas. 

Pelos idos de 1989, motivado pelo projeto de meu avô de se mudar para o sul do Pará, papai se entusiasmou com a ideia e decidiu se aventurar pelo Brasil acima. 

Após alguns meses de planos, vendeu a casa e um dos dois FIAT 147 que ocupavam a nossa garagem. O cargo de Gerente Industrial na famosa Fábrica de Cimento Montes Claros (hoje Lafarge) e o próspero empreendimento recém começado (um depósito de material de construção) ficaram para trás.

O pequeno Fiat 147 coube todos nós com folga (e sem cinto). Na frente iam papai e mamãe com Fred, recém nascido, no colo (sim, no colo!). Atrás íamos eu, Vinícius e Joicy. Foram três dias e três noites de viagem ao som de música Country e da velha fita cassete branca da Elba Ramalho. 

Do espelho retrovisor do carro mantive durante quase todo o trajeto o meu olhar fixo no bigode de papai. Era um bigode largo, farto, escuro. Bigode lindo. E o revólver preso na cintura me deixou entusiasmado: Meu pai é o Magnum! 

O revólver na cintura era um calibre 32 estilo Colt (como o usado por Getúlio Vargas), com cabo marfim. Já na primeira hora da viagem eu descobri as caixas de balas (sim, falar "bala" para munição também tá certo) embaixo do banco do motorista. "Tudo certo", pensei.

Tudo corria como esperado quando passávamos pela região da Floresta Amazônica. Para trás já tínhamos deixado sol e chuvas, muitos hotéis e postos, restaurantes e pneu furado, carro quebrado, consertado, dores de barriga, lágrimas, risos... 

Num trecho estranho de uma estrada deserta, asfalto precário, mato alto e extenso cobrindo parte da pista, uma blitz mandou papai encostar. Os homens com armas em riste em sua direção. Todos nervosos. Eu segurava o choro. Mamãe ordenou silêncio. 

Papai saiu do carro e tomaram-lhe a arma. Transtornado, ele gesticulava com o peito estufado na frente da tropa. Depois de muita discussão, o Sargento espiou mais uma vez dentro do carro e a devolveu. Não devolveu as caixas de bala.

"Realmente, cidadão, você vai precisar dela. Suma daqui". Com a arma na mão papai entrou no carro. Seus olhos lacrimejavam levemente. Cara fechada, olhos arregalados. 

O Sargento havia percebido que estava diante de uma situação delicada: se o sujeito (meu pai) continuasse a encará-lo daquela forma, seria obrigado a prendê-lo ou matá-lo, ali, na frente de uma mulher e quatro crianças. 

Ele deixara uma vida para trás em Minas, mas não deixaria sua arma. Pelo retrovisor do carro continuei durante todo o trajeto restante observando os olhos arregalados do meu pai. 

Eu tinha nove anos quando aprendi, em um olhar de fúria, que a coragem é a virtude inegociável do homem que carrega uma família. 

29 setembro 2008

Primeira Crônica

Como diria um querido (e gordo) amigo meu:

ENTÃO...

Então, eu começo essa brincadeira revelando a todos uma mania que eu tenho: Escrever.
Há uns quinze anos atrás, talvez como válvula de escape para a minha timidez (acreditem, eu era ainda mais tímido que hoje), descobri um certo prazer em pôr no papel coisas que eu não queria falar. Pensei em utilizar um diário, mas fiquei sabendo que era coisa de viado, desisti. Juntou-se a essa mania o gosto pela leitura. Depois, o tempo foi passando, a timidez esvaindo-se... me tornei um Falador! Mas não abandonei o gosto por essa mania, tampouco me tornei melhor escritor que leitor. Embora tenho ousado ao ofício, descompromissadamente, leio muito melhor que escrevo. Como a solidão me acompanhará bastante nessa nova fase da minha vida, me recorro ao bom e velho teclado do meu Lentium.

A idéia é postar uma crônica por semana, sem respeitar a ordem cronológica dos fatos relatados. Comentários diversos sobre assuntos diversos serão postados a qualquer hora, a qualquer dia.

Como introdução, preparei uma crônica para tentar explicar a razão de ser desse Blog. Aí vai:

EIS QUE SURGE O MEU BLOG

Cada lembrança guardada, dos cantos, das quinas, das festas, das palavras, dos risos e das lágrimas é uma página da história de cada pessoa. Aqui contarei ‘causos’ de minha estrada percorrida até aqui. Fatos diretamente ligados a mim, outros dos quais fui meramente expectador e mais alguns dos quais não vi, nem vivi, apenas ouvi. Momentos de tristeza e momentos de alegria, todos contados com o bom humor que me é peculiar. Humor que, por algumas vezes, não conseguiu conter as lágrimas que caíram sobre as mãos registradoras dessas mesmas palavras.

Dei preferência a uma linguagem simples, coloquial (pois é a única que tenho!). Aprendi que a “crônica” é um gênero que oscila entre a literatura e o jornalismo, resultado da visão pessoal, particular e subjetiva de quem relata algo ante um fato qualquer, colhido no cotidiano. Conhecida como “literatura de bermuda” – acho oportuno informar (aos pobres incultos) que um homem chamado Joaquim Maria Machado de Assis praticamente inventou esse gênero – é uma forma graciosa de captar um lance curioso, um momento interessante, triste ou alegre. Pois bem, carrego a pretensão discreta de dizer coisas sérias com humor, sensibilidade, crítica, e às vezes, tentando fazer soar poesia a coisa mais banal e insignificante aos nossos olhos.

Trarei lembranças por vezes repetidas no almoço de domingo, nas tardes de cerveja gelada – antigamente na cozinha aconchegante da nossa velha casinha, e atualmente, na nova área de lazer da casa nova – e nos botecos por onde andei nesses poucos anos de vida boêmia pós-moderna.

Saudade: do Latim Solitate, com influência do Saudar: Lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou a possuir.

A saudade é o grande motor dessa brincadeira toda. Ela é a grande responsável pela busca das memórias preciosas que às vezes se escondem atrás das pilhas de informações despejadas diariamente em nossa cachola, frutos da correria do nosso dia-a-dia. Pois são memórias simples, muitas quase apagadas. Como do dia em que ficamos parados numa blitz em plena mata atlântica, vendo, desesperados, papai peitar a polícia Paraense. A do dia em que a Joicy (minha irmã) foi sutilmente estimulada a engolir um cigarro, com bituca e tudo. Ou a do dia em que nosso amigo Rogerinho Paraná foi perversamente trancado em um grande aquário no Rio de Janeiro.

Essas lembranças, por mais singelas que sejam, nos fazem olhar para trás e sentir orgulho de nossa história. E fazem do registro desses momentos algo prazeroso e divertido de se dedicar. As lágrimas da saudade são doces e o sabor é especialmente sentido pelas pessoas que, de alguma forma, se tornaram personagens vivos destes contos que serão contados (vale ressaltar que "conto" é um outro gênero diferente da "crônica", e o autor [eu] sabe [sei] disso! Chamemos aqui de conto, como bons mineiros, qualquer coisa contada, ok?).

Sendo assim, deixo para cada texto seguinte a missão de convencer a todos os amigos leitores, parafraseando obliquamente meu querido Poetinha: A tentar fazer da vida algo infinito enquanto dure. A ver nas pequenas coisas, nos momentos mais singelos e nos sentimentos mais nobres a verdadeira essência da razão de ser de todos nós. Eis a razão de ser deste Blog: Emocionar, mostrando uma visão que vai além dos fatos. Mostrando por outros ângulos o sinal de vida que diariamente deixamos escapar. Estes textos serão, para mim, o reviver de lágrimas, sons, aromas, abraços e sorrisos. Pois como disse o poeta: “As coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão”.