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09 dezembro 2009

Memória de uma noite sem fim

Nunca me esquecerei daquela noite sem fim
embalada no meu sono ausente que, sozinho, velava por mim. 

A chuva caía mansa enquanto a brisa refrescava minha face, franzida, 
pelo esforço das pedaladas. Eu respirava ofegante. 

O vento assobiava uma canção em meus ouvidos, 
como que um prelúdio de Bach ao encontro de duas almas amantes. 

Da esquina vi, no alto da ladeira Antônio Rodrigues, 
ele me esperando para partir. 

Rijo, hirto, ao pé do portão de sua velha casa. Cheguei perto. 
Seus olhos cansados me fitaram com amor. 

Tentava, em vão, esconder dos meus os seus suspiros, 
e sopros de angústia planavam em seu peito. 

Só eu podia ver, lá dentro, através dos seus olhos esverdeados, 
todas aquelas nuvens negras, incapazes de evitar o sorriso sincero no canto de sua boca. 

E a madrugada fria se acomodava, enquanto subíamos a ladeira.
Minhas gabolices tentavam saltar para fora, mas não tinham importância.

As contive sem esforço. Chegamos. O carro deixamos à porta, como era sempre. 

E como era sempre ele rangia os dentes, com a cabeça erguida, 
como um guerreiro pauseando uma batalha sem fim. 

Eu queria abraçá-lo ali mesmo, mas não sabia o quanto me seriam cruéis as regras do tempo, 
que não volta jamais. 

Sua mão pesada afagou meu ombro, e ao depositar sobre um móvel os seus pertences, 
pendurou os óculos e esfregou os olhos. 

E deu um suspiro terno, ao me estender uma toalha branca: "Enxugue a cabeça, meu filho. 
Não durma com a cabeça assim".

PS: Pai, você é a luz da minha vida!

26 novembro 2009

Coisas irritantes

Poucas coisas são capazes de me tirar do sério. Pois em pleno exercício de nossa boemia mineira (a idéia surgiu no buteco), fez-se necessário registrar algumas das coisas mais irritantes dos nossos dias atuais. Talvez as lendo, leitor, você se conscientize de que pode se tornar uma pessoa menos irritante, caso o seja um tanto qualquer.

Escritor tendencioso. Gente assobiando ou falando alto em fila de banco. Pessoas no trabalho sussurrando cantos bíblicos. Sujeito que entra cantando no ônibus. Sujeito que entra gritando, ao telefone, no elevador. Papo esotérico em mesa de buteco. Pessoa que fala: "Um beijo no seu coração". Mulheres que chamam o namorado de "Mozão" (esse Mozão é a morte). Moças baladeiras bradando a perguntinha: "Cê tem Orkut?". (E se o azar for grande e a resposta negativa, elas imendam a outra: "Ah, e Menssengem, você tem?"). Pessoas que só ficam sorrindo. Pessoas que não sorriem. Sujeito que vive cortando o que o outro vai dizer (Faustão, não!). Pretensos milionários. Pretensos intelectuais. Filósofos do dia-a-dia (do tipo que sempre solta algo como: "É, para morrer basta estar vivo!"). Gente que só lê best-sellers. Gente que só lê "auto-ajuda". Mulheres que imendam um insuportável "véi" no final de cada frase. Mulheres que falam com a entonação de quem acabou de engolir um dos ursinhos carinhosos. Gente que fala "seje". Gente que fala "poblema". Gente que fala "pobrema". Gente que fala mal dos outros. Gente que só fala na primeira pessoa. Gerentes arrogantes. Vendedores ranzinzas. Candidato a Vereador. Candidato a Prefeito. Candidato a Deputado. Candidato a Senador. Candidato a Governador. Vereadores. Prefeitos. Deputados. Senadores. Governadores. Lula.

17 julho 2009

As babaquices circulantes

Há dias acumulo em minha caixa mensagens carinhosas dos meus leitores, que aguardavam ansiosamente um novo texto. Não que eu tenha muitos leitores, os pedidos são sempre repetidos por quatro ou cinco. (Provavelmente são pessoas que trabalham com o monitor do PC voltado para a parede – o que não permite que seus "chefes" percebam o quanto do seu trabalho passa pelo Orkut, Youtube, MSN e Blogs dos amigos escritores. Ainda bem).

O meu problema eu já mencionei aqui, e se agrava devido à falta da prescrição do meu Psiquiatra, que se quer me respondeu. Mas permita-me explicar o verdadeiro motivo da minha ausência. Como disse Schopenhauer a respeito dos autores, assim estou: “Permanecendo na esfera estreita das idéias circulantes”. Pior, eu permaneço na esfera estreita das babaquices circulantes. Explico.

É mais difícil escrever sobre o cotidiano quando você não está disposto a fazer piada, trocadilhos e graças gerais. Já tentei, leitor, mas as lamparinas do meu juízo não conseguem cortar as palavras com humor. Eu assisto o JN e bate aquela vontade de mandar Sarney tomar suco de caju. Vejo o Lula dizendo que o Sarney não pode ser tratado como uma pessoa comum e me bate a vontade de novo. Vejo uma arrancada do Ronaldo e já enxergo os três juntos, Lula, Sarney e Ronaldo, tomando muito suco de caju. E então, falo de Política? Da crise financeira? Da porcaria de gripe? Da Fazenda? Do Bahuan? Da Copa Libertadores?

Minhas mãos coçam para escrever sobre tudo isso, mas como menino educado, não o faço em respeito às senhoras que leem os meus textos. Certamente usaria termos abjetos e repulsivos, tanto quanto a maioria dos personagens que protagonizam todos esses temas, e que permanecem repetidamente atuantes, conduzindo o papo dos nossos butiquins.

Falar de amor é pretencioso demais, já que tantos gênios já falaram tudo o que tinha para se falar sobre o tema. Me restará então falar sempre do passado, contar histórias de momentos sublimes. Talvez poucos leiam mais que a primeira frase, já que o que desperta o interesse geral é a tal esfera das babaquices circulantes. Favor aguardar.

03 junho 2009

Velho não, saudosista!

Pensei em pegar o Trem noturno para Lisboa, a fim de refletir filosoficamente sobre o que é ser velho. Não fui. Debati tudo por aqui mesmo, e ao final do debate eu me disse a mim mesmo: “Ser velho, cara, é você achar que o hoje não é seu, achar que a sua vez já passou”. Não, não sou velho! E ainda achei a palavra certa: Saudosista, é isso que eu sou. Como pode o sujeito sentir saudade até de coisas que ele não viveu? Pode?

Pois tenho saudade do tempo em que todos se reuniam no domingo, na casa dos avós. Nesses domingos havia Fittipaldi, Piquet e Senna. Houve um tempo em que se pedia o negativo da foto emprestado para uma cópia. Nesse tempo, leitor, minha mãe falava a língua do P. Meu pai não tirava o pente Flamengo do bolso. Minha avó usava Anil e tingia as calças velhas com corante Guarany (em água fervida). As artistas só lavavam o cabelo com Shampoo de ovo. Criança tomava mingau de aveia Quaker e Maisena, nas mamadeiras Curity. As mamadeiras eram de vidro, não de plástico, e as fraldas eram de pano. Carro confortável era a famosa Rural Willys. Caminhão bom era o Fênêmê (FNM). Bicicleta era Monark pneu balão. E camisa elegante era a revolucionária camisa Volta ao Mundo.

Dentro de casa não era lugar de brincar; lugar de brincar era na rua ou no quintal. Segunda-feira era dia de cantar o Hino Nacional na escola. Travessura grande na escola era soltar Peido-alemão. Cartilha e caderno de caligrafia eram obrigatórios. Sapato para os homens era Vulcabrás, para as mulheres era Alpargatas Sete Vidas. Tênis era Kichute (amarrado por baixo) e Conga. Escritório tinha que ter uma máquina de escrever Olivetti ou Royal, de preferência bicolor. Revista masculina era a Fairplay. E os homens elegantes fixavam o cabelo com Glostora. As famílias assistiam juntas ao Vigilante Rodoviário, Os Trapalhões e a Escolinha do Professor Raimundo. A música tinha Pinchinguinha, Wilson Batista, Cartola, Ataulfo Alves, Orlando Silva, Tom Jobim, Eliseth Cardoso, Agostinho dos Santos e Vinícius de Moraes. E o futebol tinha Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Tostão, Rivelino e Pelé.

As tias viviam arrumando os bibelôs nas cristaleiras. As mulheres usavam o discreto Modess Pétala Macia. O presente mais ganhado era a caixa de sabonetes Madeiras do Oriente. Toda casa tinha uma máquina Singer e um tocador de vinil. E nos lares mais abastados tinham sempre a Barsa e a Enciclopédia Britânica. Cursinho era o de datilografia, não o pré-vestibular; mas todos sonhavam em fazer o curso de eletricidade do Instituto Universal Brasileiro. Máquina de lavar era Bendix, não Brastemp. As moças eram pedidas em namoro. O beijo não era dado em qualquer um(a). Era emocionante receber uma carta. E a Ava Gardner conseguia ser perfeita, sem lipo nem silicone.

Não vejo, pois, graça maior nas coisas do nosso mundo super-moderno. Vejo nestas uma graça menor, pobre. Tudo hoje é pobre e frágil. São pobres os novos desenhos animados, as novas músicas, os novos programas de televisão, os novos políticos, os novos carnavais e os novos brinquedos eletrônicos. Felizmente, ainda é possível encontrar num armazém qualquer de Caçarema a pomadinha Minâncora, o Biotônico Fontoura, o chuveiro Lorenzetti, o Nescafé, o Guarapan, o Leite Moça, a lata de sardinha Coqueiro, o anti-séptico Granado e o bom e velho Lacto-purga. E é bom, leitor, que ainda haja quem dê sua palavra pelo fio do bigode, quem usa penico debaixo da cama, quem usa filtro de barro, joga botão, namora escondido, toma gemada. Quem escuta Noel Rosa, lê Machado de Assis e respeita os mais velhos.

20 maio 2009

Carta ao meu Psiquiatra

Ilmo. Doutor,

Venho pedir-lhe, em regime de urgência urgentíssima, que me mande uma prescrição. Não sendo possível mandar já, envia-me logo um pedido de internação. Está cada dia mais difícil suportar esse mundo decadente e chato, doutor. Talvez o leitor meu amigo que me lê esta carta, dirá que não posso, ou que não deveria, reclamar da vida; pois certamente como, bebo e durmo bem mais e melhor que muito escritor pobre coitado que vive por aí. Como não sou religioso, doutor, não precisa me dizer que acabo de cometer assim um pecado. Na verdade estou me lixando para os meus pecados. Cá entre nós, tenho certeza de que meia dúzia de boas ações hão de compensá-los até o fim do ano. E caso não dê certo, para salvar minha alma pagarei minhas promessas antigas de uma vez, e as novas antecipadamente.

Desculpe-me a falta de consideração, doutor, mas antes de encaminhá-lo esta carta e de torná-la pública, consultei o google para tentar descobrir a possível causa da minha ranzinzice. A “coisa” me corrigiu três vezes (“Você quis dizer...”) antes de detectar a minha doença, definindo-a como estresse; e concluiu o diagnóstico mostrando milhares de imagens desse país avacalhado. Mas você sabe, doutor, que essa não é a causa da minha moléstia, embora, de fato, essa merda de lugar tenha piorado a minha gastrite. Não precisa me sugerir que eu vá para outro lugar, só não o faço por não poder levar junto a jabuticabeira do meu quintal. Como todo mundo nesse circo, doutor, eu só me preocupo com o meu quintal. Não sei se estou doido, doutor, mas se for o caso não seria tão mal, pois se não me falha o olhar cínico (não o clínico), normal agora é quem fica doidão; A lucidez está em extinção, doutor!

Espero que iniciemos logo um tratamento intensivo, ou receberás tarde a notícia, talvez já pelo telejornal, de que agredi algum sujeito no trânsito, desses que nao dão passagem nem à própria mãe e ainda buzinam se você o fizer a outro. Torça para que não seja um motoboy, doutor; geralmente eles são maiores que a gente. Mas talvez o tema da notícia seja de agressão a algum político em praça pública. Olha, doutor, eu estou que não posso ver um político na minha frente. Senador eu receio querer matar na hora. E para os casos de cantores de Axé, vendedores de consórcios e pastores evangélicos, custo a prever minhas reações, doutor.

Por fim, embora o desengano possa ser outro engano, não vejo saída senão o caminho das palavras, doutor. Apenas o cortar delas me faz esquecer que nos tornamos ridículos reféns desse mundo movido pela vaidade. Peço responder-me logo, pois o caso é urgente e posso me tornar um escritor azedo com esse estresse vagabundo. Não me vejas pretensioso, mas poeta que se preze só trabalha bem com doenças nobres no coração e na alma. E caso queira enviar-me alguma grana, também será bem vinda, doutor, pois como o meu amigo PMC, já há algum tempo o meu saldo devedor supera o saldo do meu amor.

No aguardo.

06 maio 2009

Cada flash uma história!


É sempre interessante observar algumas coisas simples, que de tão comuns e abundantes no mundo moderno, passam despercebidas aos nossos olhos. Um bom exemplo são as fotografias. Para atender a uma sugestão que se encontra subscrita numa dessas fileiras de comentários abaixo, trago a história da foto que ilustrou esse breviário durante seis meses (foto acima).

O cenário da foto é o jardim da piscina panorâmica do Hotel Glória, na Baia de Guanabara, Rio de Janeiro. Ao fundo, uma das mais belas e famosas paisagens do planeta: O Pão de Açúcar. O fotógrafo é João de Deus, um típico Dr. Mandrake de Rubem Fonseca, sujeito carismático e inteligente ao estremo, honesto e viajado, malandro e culto, mais conhecido no Japão e no Feijão Semeado como Janjão Santiago.

Em fins de outubro do ano de 2002 desembarcamos num hotel simples do centro da cidade maravilhosa. O nosso objetivo era participar de um grande evento relacionado ao Comércio Exterior brasileiro e a seus parceiros pelo mundo afora. Assistimos, ao lado dos maiores empresários e altos executivos das multinacionais, o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, discursar na abertura oficial do evento. Ali estava o PIB do Brasil, todo o ministério do governo FHC, a nata do que seria o Governo Lula e boa parte do Congresso Nacional. E ali estávamos nós, o futuro do norte de Minas, super atentos aos discursos e mais ainda à distribuição dos brindes bacanas.

Conhecedor de todos os pontos turísticos, morros, bocas, inferninhos, bailes funk, mirantes e restaurantes cariocas, Janjão elaborou um roteiro “light”. Em três dias (e três noites), visitamos os principais pontos turísticos da cidade. Passamos pela Rocinha, assistimos a um incêndio de um ônibus no Morro do Vidigal, conhecemos a Lapa, os bares boêmios de Ipanema, passeamos pelo Posto 9, empurramos o carro (sem gasolina) às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, contemplamos todas as praias, tomamos uma Brahma na barraca do Pepê, visitamos a Gávea do Mengão, lanchamos no famoso Bob’s de Copacabana, conversamos com pessoas bacanas na tradicional Help e fomos assaltados no famoso restaurante Antiquarius, no Leblon (calma nêga, fomos assaltados no preço).

Nesse meio tempo, claro, participávamos do tal evento lotado de pessoas ilustres e poderosas. Empolgados, tiramos fotos e conversamos com os ministros e as celebridades presentes, até que a coisa ficou monótona. E foi aí que Janjão nos chamou a atenção para o gigantesco aparato que formava a Guarda Presidencial. Milhares de homens de preto, óculos escuros e fones nos ouvidos controlavam a movimentação das pessoas e impediam o acesso aos andares de cima do hotel. Em segundos nosso Mandrake mentalizou um plano mirabolante para furar a guarda do presidente (com trocadilho, por favor) e termos acesso à famosa piscina panorâmica do Hotel Glória, onde conseguiríamos ter a mais bela vista da cidade maravilhosa. E entre disfarces, despistes e correrias, conseguimos chegar ao local desejado. Ficamos poucos segundos, tempo suficiente apenas para tirar uma única foto, enquanto observávamos, afoitos, meia dúzia de madames tomando sol e uma dúzia dos homens de preto, todos armados, correndo em nossa direção.

Por pouco não saímos algemados do hotel. E o que nos restou da brincadeira foi essa fotografia, que nos trás as lembranças deliciosas de tudo que ocorreu naquele dia, de tudo que curtimos naquele passeio. Esse é o grande barato das fotos, a conexão que podemos fazer entre a imagem, o instante congelado, e as lembranças dos nossos momentos especiais. Só a fotografia é capaz de parar o tempo, imortalizar as coisas. Ela é o infinito despertar da saudade, que nos dá o prazer de reviver sentimentos, loucuras, sonhos, alegrias e tristezas.

05 maio 2009

Você mente?

Você detesta mentira? Você lê? Sabe ler? Você finge que não vê? Você olha nos olhos? Aperta a mão? Dá três beijinhos? Dois? Um só? Grita no banheiro? Dança também? Tem vergonha? É cara de pau? Já quis morrer? Coleciona erros? Se orgulha deles? Dá esmolas pra se livrar da culpa? Oferece carona? Pede cigarro? Sente falta de ar? Ama? Engana? Reza? Finge? Brocha? Ouve conselho? Se faz de coitado? Recusa ligações? Retorna ligações? Apaga correntes de oração? Fala do vizinho? Fala mal? Tem amigos? Amigos? Tem inveja? Bebe pra afastar a dor? Fica rico quando bebe? Canta? Conta? Conta tudo? E diz o nome do santo? Xinga a chuva? E o frio? Xinga o sol? Sente saudades de alguém? Ri das próprias piadas? Acorda rindo? Acorda chorando? Quer dinheiro? Quer mais? Você mente sem piscar? Mente num piscar? Ah, você mente?

07 abril 2009

Da arte e da cultura?

Só agora tomei conhecimento do que disse (escreveu) o Jornalista Ricardo Freitas, dias atrás, sobre o famigerado slogan com a qual foi batizada nossa Montes Claros: “ A cidade da arte e da cultura”. Deve mesmo ser “cultural”, no sertão norte-mineiro, a arte de se denominar “capital” disso ou daquilo. No nosso sertão encontram-se muitos casos super interessantes de “capital mundial” disso ou daquilo outro.

Se tais slogans são criados por políticos-governantes ou por próprios artistas da terra, é certo que todos o fazem com a melhor das intenções. Mas mesmo que as denominações cumpram o seu papel de divulgar positivamente o município pelo mundo afora, acabam servindo, discretamente, de mera ludibriação do povo que o habita.

Nos enchemos de orgulho, os montes-clarenses, quando nos proclamamos originários da “cidade da arte e da cultura”. E assim, iludidos pela beleza do slogan, ou talvez por pura ignorância às diversas formas de manifestações culturais e artísticas que embelezam o universo, desconhecemos – ou despercebemos – o verdadeiro sentido de suas palavras.

Pois na nossa “cidade da arte e da cultura” não existe um único teatro, um bom museu histórico nem um estádio de futebol (digno de ser assim chamado). O descaso à cultura e aos nossos artistas é praticado por todos no sertão norte-mineiro. Nem a classe política, encarregada de “providenciar” os palcos de celebração dessas manifestações, nem nós, cidadãos, estamos nos lixando para isso tudo.

É mesmo uma pena ver um evento tão especial como o Psiu Poético ser praticamente ignorado por grande parte da população. Mas é compreensível. Poesia é um perfume sentido por poucos. Terrível mesmo é ver nosso folclore se arrastando day-by-day, mesmo ancorado num grande festival internacional. Um festival como este deveria estar marcado na agenda cultural de todo o país, sem que nenhum brasileiro filho de Deus o desconhecesse. Montes Claros teria arte, cultura e turismo na mesma panela. Aí era só sair pro abraço.

O futebol dispensa comentários. É difícil encontrar uma cidade do porte de Moc City que não tenha palco (leia-se: estádio) para celebrar a maior manifestação artística do povo brasileiro. Mas o Mocão "vai sair" gente. Agora é sério. Não riam!

E vamos em frente, exalando nosso orgulho. Quem sabe todos nós, juntos com nossos queridos governantes (estes sempre interessadíssimos nas eleições que sempre se aproximam), façamos, um dia, ser verdade o virtuoso brado proclamado por todos nós?

03 abril 2009

Um dia aquilo vai pipocar!

- Opa! - Opa, boa tarde! (sotaque nordestino carregado). 
- Vai pra Natal a passeio é? 
- Não senhor, viagem de trabalho mesmo. (pausa de cinco minutos) 
- Rapaz, tu não veio com medo, de Belo Horizonte até Brasília, não? Eu vi na TV do aeroporto que a chuva tá braba de lá até aqui. 
- Num vim com medo não. Havia dois Deputados vindo no mesmo avião. Esse não tinha risco de cair! Acho que o capeta não ia querer deputado nenhum lá com ele não. (risos) 
- Qual o nome do senhor? 
- Nilson. 
- Prazer, o meu é Guilherme. 
- O senhor não é Deputado, não né, Seu Nilson? 
- Sou não. Sou assessor da Governadora do Rio Grande do Norte. Antes eu era assessor do Senador José Agripino, esse que está nas manchetes por causa da Camargo Correa (mostrando o jornal com a foto do Senador na capa). 
- Hum. Então o senhor é poderoso uai! (pausa de três minutos) 
- Me diz uma coisa Seu Nilson, o emprego de assessor de Governador é melhor que o de assessor de Senador? 
- Rapaz, é tudo bom! De Senador é melhor um pouco porquê tem um pouco mais de regalias. Mas briguei com o Senador e tive que sair. Ele tá mamando no Senado desde 86. (pausa de dois minutos) 
- O senhor mamou muito tempo junto com ele lá Seu Nilson? (riso contido). 
- Rapaz, tu por acaso é Jornalista é? (com a testa franzida). 
- Não, por que? 
- Tu tá perguntando que nem Jornalista! (encarando nos olhos) 
- Não sou não. Sou só curioso mesmo. 
- Ah bom, Jornalista é um perigo. (pausa de um minuto) 
- O senhor acha que esse nosso país tem futuro, com a política assim desse jeito que taí, Seu Nilson? 
- "Senhor" tá no céu! Futuro? Sei lá. 
- Hum, tá certo. Mas você não acha que essa zona que tá lá no Congresso pode explodir e dar alguma merda no futuro, não? 
- Rapaz, eu acho que um dia aquilo vai pipocar viu?! Ainda bem que o Exército tá todo fudido, senão era um perigo. 
- O senhor tem gostado de mamar com a Governadora, Seu Nilson? 
- "Homi", tu tá de sacanagem comigo!? 
- Calma Seu Nilson, vamos mudar de assunto então. O senhor veio a Brasília a passeio?

25 março 2009

O Brasil está em suas mãos


Lula 1980 A.D (antes do Duda Mendonça)

O presidente Lula segue firme em seu segundo mandato com uma histórica aprovação popular. Tudo conquistado democraticamente, sem manobras plebiscitárias ou outros tipos de manipulações casuísticas. Graças aos bons ventos - passados - da economia mundial e a uma "forcinha" do publicitário Duda Mendonça, nosso presidente cravou sua força, de caráter messiânico, no imaginário do povo brasileiro. Além do terninho e da gravata, e do curso de etiqueta, ele manteve a mesma política econômica do governo Tucano, a mesmíssima pela qual ele sempre lutou contra, e ampliou os programas sociais em meio a um turbilhão de escândalos e denúncias de corrupção. Se mostrou inatingível. Sua liderança, incontestável, significa estabilidade política e ordem na bagunça. Mas eu não me esqueço do Lula A.D (antes do Duda Mendonça). E dizem que o futuro do Brasil está em suas mãos.

23 março 2009

De cara nova e dedos afiados...

Amigos, voltei! Voltei de cara nova e cheio de vontade de escrever. Nos últimos três meses vi “vovó-pela-greta”. Mesmo estando esbelto e fininho, como diria Jotinha, alguns probleminhas de saúde me encontraram desprevenido. Não bastasse um pé quebrado aqui, uma tendinite ali... E eis que me encontrou agora uma tal Síndrome do Túnel de Carpo. Cá estou há dias com a mão esquerda imobilizada, sem poder exercer o meu ofício-terapêutico de redigir minhas simplórias linhas, e pior, sem poder tomar minha cervejinha (até Nova Schin me foi proibido). Cheguei a beirar o desespero, sem saber o que seria de mim sem meus vícios. Deus me livre.

Pois voltei com mais vontade e ainda menos tempo. Escreverei mais sobre política e outros temas da atualidade, e menos sobre histórias e ‘causos’, como fiz até aqui (vou dar um tempo com essa viadagem). Aviso aos navegantes que serei mais ácido, irreverente e direto, tentando levar tudo o que é sério, menos a sério! (orientação médica). Contrariando alguns pedidos ilustres, não postarei meus poemas. Postarei fatos e fotos com breves comentários sobre tudo que considero bacana ou bizarro. Comentem a vontade.

Enquanto me recupero da mão, na bica de completar 28 voltas ao redor do astro-rei, vou voltando a escrever, pouco, e devagar, as minhas crônicas e os meus poemas. O finado mestre Antônio Maria disse que “O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira”. Pois hoje escrevo com dois dedos. E continuo amando com a vida inteira, e com todas as letras.


NOVIDADE NO BLOG


Será lançada a partir de hoje uma série de posts que se chamará: EU NÃO ME ESQUEÇO DE VOCÊ. Esta série foi criada para nos lembrarmos de pessoas que não merecem ser esquecidas, seja pelo seu talento, por grandes realizações ou por terem feito muita merda.


O primeiro homenageado da série foi escolhido por se tratar do cidadão mais ilustre da nossa nação: Sr. Presidente Lula.


24 janeiro 2009

Queridos amigos...

No início da tarde do dia 23 de Setembro de 2008 fui internado, em Belo Horizonte, com alguns leves sintomas de infarto (suor, náusea, palidez, debilidade, palpitação, vômito, dificuldade respiratória, opressão no peito, ansiedade, zumbido nos ouvidos e incapacidade de falar). Fui "atravessado" à frente de aproximadamente cem pessoas, o que me deixou ali a certeza de que o meu dia havia chegado. Não chegou. Após uma dezena de eletrocardiogramas e um atendimento maravilhoso da equipe médica, fui liberado pelos médicos no despertar da madrugada, com uma lista de recomendações e pedidos de exames. Sozinho, retornei ao hotel e pensei na vida, enquanto afastava o medo da morte.

QUERIDOS AMIGOS...
BH, 24/09/2008 - 02:20hs

Queridos amigos de bons corações, caso eu venha a faltar amanhã, peço que ouçam - e anotem - minhas recomendações. Saibam que amanhã mesmo, do infinito, os verei com um olhar ermo de paz, e conhecerei a dor indizível da ausência do carinho que se esvais. E inutilmente, implorarei a todas as divindades que me permitam tê-los um pouco mais.

Quando a Lua, essa fiel companheira do meu frágil coração, estiver radiante iluminando as estrelas, saiam pela noite com um velho violão, e cantem meus sambas por todos os cantos. Levem um bom vinho para aquecer suas almas, e se ao contemplá-la, por acaso cair uma lágrima, digam à minha amiga Lua que é apenas uma lembrança trazendo mais calma.

Se por acaso encontrarem a minha amada, mesmo sabendo que não havia fé em minh'alma, digam-na que a esperarei, em qualquer outra jornada. E se ela chorar, recolham as lágrimas em frascos pequenos, e me enviem depressa quando o seu pranto secar, pois eu, que já não tenho mais o seu sorriso, terei, ao menos, sua tristeza para guardar.

Procurem nos mais altos galhos, do meu velho quintal, os nomes riscados dos meus primeiros amores, e avisem sem pressa que não ando mais por aqui. Depois, revelem os meus segredos num bilhete com flores, dizendo que por elas eu também já sofri.

Digam à minha mãezinha que não embale os meus livros, para que não aprisione os meus versos mais queridos, dos meus poetas mais amigos. E peçam que eles não sejam distribuídos em vão, pois pior me seria aceitar que Machado estivesse em qualquer chão, e que Vinícius não estivesse lá – na velha estante – majestoso em seu eterno lugar.

Visitem os bares por onde andei, onde bebi minhas angústias, segurei meu choro, cantei, dancei, sorri. Bebam, sem moderação. E falem minutos intermináveis de todos aqueles assuntos, antes de cantarem bem alto um samba-canção.

Digam ao meu querido pai, que enquanto carreguei lucidez por aí, escondi do mundo a tristeza que viveu em mim. Que por aqui passou um poeta menor, que viveu em seu ser uma intensa viagem, que começou sem começo e terminou sem fim.


*Ainda não fiz os exames médicos solicitados. Mas graças a Deus, aumentei consideravelmente a carga de trabalho, o consumo de álcool, de açúcar e de picanha maturada. Por favor, sei que são muitas, mas anotem as minhas recomendações.

19 janeiro 2009

Seu gato no telhado

Seu gato no telhado

Atendendo ao apelo carinhoso de alguns grandes amigos (quase fui subornado), cá estou novamente a falar de gato. A história contada em meu último texto, que relata um caso de redenção do pobre animal ora tão em voga, despertou lembranças que nos remetem a preocupações legítimas da nossa atualidade. Hoje minhas linhas são dirigidas, principalmente, a você leitor que está empregado. Bem ou mal empregado. Saiba que em momentos de crise global a chapa esquenta da tarde pra noite, e o seu gato pode subir no telhado. Você leitor que está desempregado (ou melhor, disponível), atente-se também às minhas dicas, para que, quando conquistada uma oportunidade, ela não seja ameaçada pelo desconhecimento dos meus avisos prévios. Acredite, o seu gato certamente poderá subir no telhado.

Mas faz-se necessário esclarecer a todos – empregados e “disponíveis” – o significado do termo “gato no telhado”. Trata-se de uma expressão popular de origem desconhecida pelo autor, mas que foi trazida ao sertão norte-mineiro por um carioca ilustre, Seu Annibal, homem dos sete instrumentos (como dizia o Poetinha), um músico adormecido em sua sensibilidade, capaz de tocar o “Tico-Tico no Fubá” com duas tampas de garrafas. Para melhor entendimento do termo, trago um breve relato para ilustrar o que geralmente ocorre em vias de utilização do mesmo.

Vários meses já haviam se passado quando o Seu Annibal, Gestor de alto escalão, enviara ao interior um Executivo (este de baixo escalão mesmo) a fim de prestar, apoiado em sua longa experiência profissional, um atendimento comercial na micro-região previamente estabelecida. Por ser esta micro-região distante da sede da empresa, demorou-se a saber das estripulias do sujeito nos cabarés da cidade, tal que as más línguas puseram-se todas a aumentar um ponto a cada dia, revelando ao Gestor informações – duvidosas – segundo as quais diziam que o executivo estava por se tornar sócio das melhores casas do ramo, dedicando-se a elas (às casas e às mulheres) quase que em tempo integral.

E não bastasse a preocupação do Gestor com o andar da carruagem, chegara de São Paulo um novo Diretor (de altíssimo escalão). Este, como todo bom paulista pronto a trabalhar quatorze horas por dia, pôs-se a tomar conhecimento de tudo e de todos que ali estavam, no mesmo barco. Pois às informações – duvidosas – trazidas ao Seu Annibal juntou-se o resultado negativo dos números apresentados pelo Executivo no exercício de suas funções, e o mesmo foi chamado a uma reunião pelo Diretor. A conversa foi rápida, a portas fechadas. E o que se sabe do seu teor, além do seu resultado, é graças ao que foi relatado pelo próprio Executivo ao Gestor.

Indignado e confuso, com a dicção altamente comprometida por um deslocamento mandibular, ele recorreu ao Seu Annibal para pedir melhores explicações e manifestar o seu protesto. E disparou:

- Pô Annibal, bringadeira! Eu nem gonheço esse cara, ele vem lá de Zão Baulo e me vaz viajar isso tudo pra me bergundar de gato, pô? Disse gui meu gato subiu no telhado! Eu nem gato tenho! Moro em abardamento e na minha casa nem tem delhado, pô! Bringadeira viu Annibal!

Pois o gato do Executivo subiu e caiu do telhado. Na mesma semana o sujeito estava “disponível” ao mercado, de malas prontas para viajar de volta à sua cidade natal. Portanto, leitor, seguem minhas dicas para que o seu gatinho não suba no telhado:

Em primeiro lugar, tente se relacionar bem com "todas" as pessoas que fazem parte da sua empresa (isso requer basicamente ser educado e prestativo). Depois, concentre-se na busca pelos resultados positivos (sem eles não tem gato que não suba no telhado). Seja um profissional cada vez mais estudioso da sua empresa, do seu produto e do seu cliente (conheça-os cada dia mais). Seja uma pessoa humilde, sutilmente marcada pela modéstia (não uma modéstia como de comum, numa forma infame de vaidade). Queira mostrar serviço ao "seu" chefe, e não ao chefe dele. E por fim, algo que considero simples e especial (apesar de não estar na moda): Acredite em valores como a lealdade e a honestidade. E não abra mão deles.

11 janeiro 2009

O gato sinistro

Essa crônica é dedicada aos amigos Léo Braga, Jovanilson, Pipa, Bob e Edmilson (Cabeça).

O gato sinistro

Eles deram uma pequena pausa na conversa quando Bob percebeu, do outro lado da praça, um carro encostando, sem estacionar. Aderbal não desligou o veículo, apenas deixou em ponto-morto. Abriu a porta bruscamente, enquanto se movia dentro do carro na busca de algo que não se deixava dominar. Bob apontou a cena aos dois companheiros, Pipa e Cabeça, tão logo Seu Manoel, o dono do bar, postou mais uma garrafa de cerveja em cima da mesa. E seus olhares fulguraram por um instante aquele homem dentro do carro, até que logo reconheceram-no: Aderbal, tio do Pipa!

Após o intenso movimento dentro do veículo, os três espectadores vêem Aderbal esticar os braços para fora, efetuando o lançamento de algo facilmente identificado por eles. Era um gato. Aderbal expressava em seu rosto um misto de ódio, raiva e alívio: Enfim ficaria livre daquele gato. E arrancou o carro em alta velocidade, em retorno à sua casa no Bairro Todos os Santos. O animal permanecia lá, imóvel, com uma profunda tristeza, indefeso, no canto frio de um meio-fio largo.

Os três, do outro lado da praça, ainda sentados à mesa do Bar do Manoel – no Bairro de Lourdes, exatamente no ponto da cidade oposto ao Bairro do Aderbal – foram tomados por uma crise de risos, até que Bob, ainda sem fôlego, remete uma pergunta aos dois companheiros:

- Por acaso nosso bairro é lugar de jogar gato?

Ergueram-se os três em movimentos sincronizados. Em segundos, Cabeça ligou a motocicleta enquanto Pipa atravessava a rua, já com o gato nas mãos. Bob observava tudo do bar, sua missão era aguardar os companheiros e garantir ao Seu Manoel que o estabelecimento não sofreria calote.

Cabeça cortou a cidade em alta velocidade, carregando consigo Pipa e o gato, que nesse momento sorria um sorriso obsequioso, sentindo um carinho acolhedor, tal que pensou estar ali a sua tão desejada adoção. Não estava. Em minutos, ele (o gato) se via novamente na porta da casa donde saíra minutos antes, de carro, ouvindo, resignado, os resmungos e ofensas do incompreensível, mas não menos estimado Aderbal. Apesar de sua agilidade felina, não conseguiu se esquivar do arremesso feito por Pipa em direção à varanda da casa. Foi um vôo rápido e certeiro. Feito o arremesso, Cabeça e Pipa dispararam em retorno ao Bar do Manoel, preferindo um caminho que não permitisse o cruzamento, em trânsito, com o carro de Aderbal. E o gato permanecia lá, mais uma vez imóvel. Imóvel e triste.

Poucos minutos se passaram até que Aderbal chegasse, feliz e sorridente, à sua residência. Estaria “eternamente livre daquele gato nojento, folgado e traiçoeiro”. Pois enquanto estacionava com cuidado o carro na garagem, desejou naquele momento que o maldito fosse logo atropelado, para que outro infeliz não sofresse as conhecidas conseqüências de sua invasão domiciliar. Imaginou-o lá, sozinho, faminto, empoeirado, na beira da praça onde fora jogado. E sorriu. Saiu do veículo ainda sorrindo e andou passos curtos até o início da varanda da casa. Eis que, ao olhar para a porta não acreditou no que viu à sua frente: O gato!

Lá estava ele junto à porta a encará-lo nos olhos, temeroso e eriçado. Aderbal arrepiou-se fortemente os pêlos dos braços, seu coração bateu mais forte, alertado pelas forças do medo. Olhou em torno. O gato continuou parado à porta, o rabo espetado, o dorso em arco, numa atitude de pavor e defesa. E Aderbal, imóvel, pensava no poder sinistro do gato: “Meu Deus, esse bicho é o demônio!”. E assim permaneceram durante alguns minutos, sem saber o tamanho do medo que o outro sentia, até que o gato caminhou devagar, sem desviar o olhar, para o canto do muro lateral da casa, abrindo espaço à passagem do homem. Aderbal entrou em casa perplexo, aterrorizado. Cinco minutos depois foi servido ao gato um prato médio com sardinhas frescas, procedimento que se repetiria três vezes ao dia, a partir daquele momento.

Alguns dias depois, em visita ao Tio Aderbal, Pipa observava da janela o gato sorridente deitado na varanda:

- Poxa tio, como o gato está gordinho!
- Meu Deus do céu Pipa, sai daí dessa janela! Nem olhe pra ele meu filho, esse gato é do capeta!

08 janeiro 2009

Amor do meu Poema

Dedicado ao meu amor! Te desejo toda felicidade do mundo, Meu Anjo...


Amor à primeira vista pode ser que exista. 
Mas amor de verdade é do tipo do meu, que avisa que vem. 

Que acena de longe, e se aproxima, sorrindo, a passos de estações. 

Amor de verdade é assim que nem o meu, calado, cultivado, ganhado no tempo. 
Apego lento e desarmado, que confunde mas não se solta, se aventura mas não se rende. 

Que não embriaga nem ilude. Que desperta-se no plantar dos sorrisos, se aquece no enxugar das lágrimas. 

Amor de verdade é assim, que nem o meu, 
cristão, católico, permanente.