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28 outubro 2013

Um dedo médio levantado


Dia desses li, não sei aonde, um texto da minha querida Carol Bensimon em que ela diz que a Literatura é a coisa mais transgressora dos dias de hoje. Me lembrei disso hoje no fim da tarde, quando parei no semáforo da Senhora do Carmo e fiquei ali, observando, no ponto de ônibus ao meu lado, várias pessoas cansadas. Algumas de pé. Todas no celular. Ninguém olhava para o céu ou para o trânsito. Ninguém olhava o asfalto quente, sofrido, cansado do peso dos carros e da vida. Ninguém pensava na vida, eu acho.

Esse é o nosso mundo. Você não pensa. Não dá tempo. E no que te sobra, você se distrai. Sempre. Apressadamente. Você não formula mais frases, copia e cola. Não tem uma ideia, repete as prontas. Não conversa mais de dois minutos ao telefone com um amigo. Não senta na porta de casa. Não vai a pé à padaria. Não visita suas tias. Não fecha os olhos para ouvir uma música.

Caramba, você perdeu a espontaneidade. Você prefere os seriados de trinta minutos aos filmes de duas horas. Você prefere notícias com cento e quarenta caracteres à matéria profunda da porra toda. Por que você não quer entender, quer visualizar. A verdade é que você é um imbecil correndo no mundo, cansado e sorridente, carregando vaidade, gastrite e Iphone. 

E nesse seu mundo corrido, a minha Literatura, com suas fileiras eternas de folhas e palavras sem pressa, é realmente um dedo médio levantado para tudo isso à nossa volta.

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