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08 outubro 2008

Coragem

Entre as coisas das quais me orgulho de meu pai, a principal é a coragem. Sujeito de inteligência rara, timidez polida, princípios inabaláveis. Gente do tipo que não olha de cima. Que trata homem como se deve tratar um homem. Que trata mulher como minha mãe quer, ou seja, não trata.

Mesmo Sociólogo e Economista, um sujeito bruto que pagou caro para se formar doutor na Faculdade da Vida. E que entre glórias e tropeços põe seus valores à frente na luta pelos seus. 

Pois foi assim que um dia ele decidiu empreender numa mudança radical em nossas vidas. 

Pelos idos de 1989, motivado pelo projeto de meu avô de se mudar para o sul do Pará, papai se entusiasmou com a ideia e decidiu se aventurar pelo Brasil acima. 

Após alguns meses de planos, vendeu a casa e um dos dois FIAT 147 que ocupavam a nossa garagem. O cargo de Gerente Industrial na famosa Fábrica de Cimento Montes Claros (hoje Lafarge) e o próspero empreendimento recém começado (um depósito de material de construção) ficaram para trás.

O pequeno Fiat 147 coube todos nós com folga (e sem cinto). Na frente iam papai e mamãe com Fred, recém nascido, no colo (sim, no colo!). Atrás íamos eu, Vinícius e Joicy. Foram três dias e três noites de viagem ao som de música Country e da velha fita cassete branca da Elba Ramalho. 

Do espelho retrovisor do carro mantive durante quase todo o trajeto o meu olhar fixo no bigode de papai. Era um bigode largo, farto, escuro. Bigode lindo. E o revólver preso na cintura me deixou entusiasmado: Meu pai é o Magnum! 

O revólver na cintura era um calibre 32 estilo Colt (como o usado por Getúlio Vargas), com cabo marfim. Já na primeira hora da viagem eu descobri as caixas de balas (sim, falar "bala" para munição também tá certo) embaixo do banco do motorista. "Tudo certo", pensei.

Tudo corria como esperado quando passávamos pela região da Floresta Amazônica. Para trás já tínhamos deixado sol e chuvas, muitos hotéis e postos, restaurantes e pneu furado, carro quebrado, consertado, dores de barriga, lágrimas, risos... 

Num trecho estranho de uma estrada deserta, asfalto precário, mato alto e extenso cobrindo parte da pista, uma blitz mandou papai encostar. Os homens com armas em riste em sua direção. Todos nervosos. Eu segurava o choro. Mamãe ordenou silêncio. 

Papai saiu do carro e tomaram-lhe a arma. Transtornado, ele gesticulava com o peito estufado na frente da tropa. Depois de muita discussão, o Sargento espiou mais uma vez dentro do carro e a devolveu. Não devolveu as caixas de bala.

"Realmente, cidadão, você vai precisar dela. Suma daqui". Com a arma na mão papai entrou no carro. Seus olhos lacrimejavam levemente. Cara fechada, olhos arregalados. 

O Sargento havia percebido que estava diante de uma situação delicada: se o sujeito (meu pai) continuasse a encará-lo daquela forma, seria obrigado a prendê-lo ou matá-lo, ali, na frente de uma mulher e quatro crianças. 

Ele deixara uma vida para trás em Minas, mas não deixaria sua arma. Pelo retrovisor do carro continuei durante todo o trajeto restante observando os olhos arregalados do meu pai. 

Eu tinha nove anos quando aprendi, em um olhar de fúria, que a coragem é a virtude inegociável do homem que carrega uma família.