Pensei em pegar o Trem noturno para Lisboa, a fim de refletir filosoficamente sobre o que é ser velho. Não fui. Debati tudo por aqui mesmo, e ao final do debate eu me disse a mim mesmo: “Ser velho, cara, é você achar que o hoje não é seu, achar que a sua vez já passou”. Não, não sou velho! E ainda achei a palavra certa: Saudosista, é isso que eu sou. Como pode o sujeito sentir saudade até de coisas que ele não viveu? Pode?
Pois tenho saudade do tempo em que todos se reuniam no domingo, na casa dos avós. Nesses domingos havia Fittipaldi, Piquet e Senna. Houve um tempo em que se pedia o negativo da foto emprestado para uma cópia. Nesse tempo, leitor, minha mãe falava a língua do P. Meu pai não tirava o pente Flamengo do bolso. Minha avó usava Anil e tingia as calças velhas com corante Guarany (em água fervida). As artistas só lavavam o cabelo com Shampoo de ovo. Criança tomava mingau de aveia Quaker e Maisena, nas mamadeiras Curity. As mamadeiras eram de vidro, não de plástico, e as fraldas eram de pano. Carro confortável era a famosa Rural Willys. Caminhão bom era o Fênêmê (FNM). Bicicleta era Monark pneu balão. E camisa elegante era a revolucionária camisa Volta ao Mundo.
Dentro de casa não era lugar de brincar; lugar de brincar era na rua ou no quintal. Segunda-feira era dia de cantar o Hino Nacional na escola. Travessura grande na escola era soltar Peido-alemão. Cartilha e caderno de caligrafia eram obrigatórios. Sapato para os homens era Vulcabrás, para as mulheres era Alpargatas Sete Vidas. Tênis era Kichute (amarrado por baixo) e Conga. Escritório tinha que ter uma máquina de escrever Olivetti ou Royal, de preferência bicolor. Revista masculina era a Fairplay. E os homens elegantes fixavam o cabelo com Glostora. As famílias assistiam juntas ao Vigilante Rodoviário, Os Trapalhões e a Escolinha do Professor Raimundo. A música tinha Pinchinguinha, Wilson Batista, Cartola, Ataulfo Alves, Orlando Silva, Tom Jobim, Eliseth Cardoso, Agostinho dos Santos e Vinícius de Moraes. E o futebol tinha Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Tostão, Rivelino e Pelé.
As tias viviam arrumando os bibelôs nas cristaleiras. As mulheres usavam o discreto Modess Pétala Macia. O presente mais ganhado era a caixa de sabonetes Madeiras do Oriente. Toda casa tinha uma máquina Singer e um tocador de vinil. E nos lares mais abastados tinham sempre a Barsa e a Enciclopédia Britânica. Cursinho era o de datilografia, não o pré-vestibular; mas todos sonhavam em fazer o curso de eletricidade do Instituto Universal Brasileiro. Máquina de lavar era Bendix, não Brastemp. As moças eram pedidas em namoro. O beijo não era dado em qualquer um(a). Era emocionante receber uma carta. E a Ava Gardner conseguia ser perfeita, sem lipo nem silicone.
Não vejo, pois, graça maior nas coisas do nosso mundo super-moderno. Vejo nestas uma graça menor, pobre. Tudo hoje é pobre e frágil. São pobres os novos desenhos animados, as novas músicas, os novos programas de televisão, os novos políticos, os novos carnavais e os novos brinquedos eletrônicos. Felizmente, ainda é possível encontrar num armazém qualquer de Caçarema a pomadinha Minâncora, o Biotônico Fontoura, o chuveiro Lorenzetti, o Nescafé, o Guarapan, o Leite Moça, a lata de sardinha Coqueiro, o anti-séptico Granado e o bom e velho Lacto-purga. E é bom, leitor, que ainda haja quem dê sua palavra pelo fio do bigode, quem usa penico debaixo da cama, quem usa filtro de barro, joga botão, namora escondido, toma gemada. Quem escuta Noel Rosa, lê Machado de Assis e respeita os mais velhos.