Início
Tudo foi rápido, meses, um ano talvez. Poucos encontros até o primeiro beijo, que os fez perder a razão e ababelou os sentidos. Para eles, naquele beijo foi zerado o cronômetro da vida, como se o mundo começasse dali. Eles ainda não sabiam que ela, a vida, a cada beijo e a cada lágrima, haveria de zerar os cronômetros, dando novo sentido aos sentidos.
Paixão
Ele guardou para sempre as luzes coloridas da festa. A fumaça, a roupa, a música, cada movimento da dança no meio da pista. Depois os outros beijos, iluminados pelo pôr do sol, o cabelo que deslizava sobre a testa, a voz suave, a pele branca, o sorriso doce. Tudo guardado para sempre. E sem projetos nem sonhos ele apenas curtia o calor que ela lhe dava no peito.
Separação
A vida era mansa quando seu tempo parou outra vez. Ela partiu, e partiu seu coração. Ele se esquivou da tristeza indo atrás de novos beijos, e na medida em que os novos perdiam a graça, ele se lembrava dela. Via em outros o seu rosto, e carregou por anos a sensação de que estavam prestes a se cruzar pela rua.
Futuro
Adultos, eram muitas as lembranças que ainda restaram, e eram raros os momentos em que eles as buscavam. Trabalho e filhos, não restava mais tempo para restolhar as memórias, quase apagadas. Cada minuto tinha o poder de se tornar ainda mais exíguo.
Reencontro
Apenas se olharam, de longe. Observaram as mudanças que o tempo provocou em seus corpos. Confuso. Inacreditável encontro depois de tantos anos. Ela lhe sorriu aquele mesmo sorriso doce: “Quantas águas se passaram...” Em poucos minutos relembraram o beijo, a festa, o pôr do sol, a partida. E novamente partiram.
Fim
Pensaram nas águas que passam. Uma mistura de nostalgia e medo flanava em seus corações. E uma alegria discreta e dissimulada também se fez presente, chegou e partiu, apressadamente. E dela restou a descoberta de que aqueles dois morreram, embora continuassem cheios de vida.
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24 outubro 2010
27 setembro 2010
Que time é o teu, Jornalista?
Não consigo entender porquê alguns jornalistas esportivos consideram importante guardar a sete chaves o seu time de coração. Revelar seria perigoso? Um risco à integridade física do narrador/comentarista/cronista? Perder-se-ia a credibilidade o sujeito que expressa a sua opinião, seja qual for, sem fazer de conta que não torce para time algum?
É claro que qualquer sujeito que gosta de futebol, em qualquer lugar do mundo, aprendeu a gostar torcendo por algum time. É do exercício do "torcer" que surge a paixão pelo esporte, antes mesmo da escolha de qualquer profissão. Para mim, esse 'esconder o time' é uma forma sutil e arrogante de dizer ao espectador: "Escondo porque você, espectador, é um grande imbecil incapaz de receber meus comentários sem pôr em dúvida a minha honestidade!". Pobres Jornalistas, se acham vítimas da nossa ignorância. Preferem a camisa da hipocrisia à camisa da credibilidade.
Pois como espectador, prefiro os que não se importam de "mostrar" seu time, assim como os que não se importam de externar suas convicções políticas ou quaisquer outras opiniões. Prefiro os que não se colocam acima do bem e do mal, os que falam com sensatez o que pensam, ora como torcedor, ora como Jornalista. Prefiro os isentos, não os imparciais. Prefiro os Armandos Nogueira.
***
Não me esqueço da última vez em que perguntei a um Jornalista sobre tal assunto. Foi emblemático. Estávamos na festa do Troféu Globo Minas, em Belo Horizonte. Após toda a cerimônia de homenagens e premiações, conversávamos numa mesma roda eu, meu grande amigo Marcos Vinícius, Letícia Renna, Márcio Resende de Freitas, Jaime Junior, Bob Faria, Djalma Santos, Jair Bala e outros ilustres ex-jogadores. Papo animado regado a cerveja gelada, Whisky importado e muita vaidade. No fim da noite, não resisti à coceira na língua e perguntei ao Jaime Junior: "Jaime, pra que time torce o Márcio Resende?" E ele, com a elegância que é peculiar aos Jornalistas, me respondeu: "Olha, Guilherme, não posso falar. Nós, Jornalistas, temos um acordo entre nós, de não abrirmos essa informação ao público".
Não sei o que foi pior, descobrir que existe esse tipo de acordo ou descobrir que o Márcio Resende de Freitas é Jornalista.
É claro que qualquer sujeito que gosta de futebol, em qualquer lugar do mundo, aprendeu a gostar torcendo por algum time. É do exercício do "torcer" que surge a paixão pelo esporte, antes mesmo da escolha de qualquer profissão. Para mim, esse 'esconder o time' é uma forma sutil e arrogante de dizer ao espectador: "Escondo porque você, espectador, é um grande imbecil incapaz de receber meus comentários sem pôr em dúvida a minha honestidade!". Pobres Jornalistas, se acham vítimas da nossa ignorância. Preferem a camisa da hipocrisia à camisa da credibilidade.
Pois como espectador, prefiro os que não se importam de "mostrar" seu time, assim como os que não se importam de externar suas convicções políticas ou quaisquer outras opiniões. Prefiro os que não se colocam acima do bem e do mal, os que falam com sensatez o que pensam, ora como torcedor, ora como Jornalista. Prefiro os isentos, não os imparciais. Prefiro os Armandos Nogueira.
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Não me esqueço da última vez em que perguntei a um Jornalista sobre tal assunto. Foi emblemático. Estávamos na festa do Troféu Globo Minas, em Belo Horizonte. Após toda a cerimônia de homenagens e premiações, conversávamos numa mesma roda eu, meu grande amigo Marcos Vinícius, Letícia Renna, Márcio Resende de Freitas, Jaime Junior, Bob Faria, Djalma Santos, Jair Bala e outros ilustres ex-jogadores. Papo animado regado a cerveja gelada, Whisky importado e muita vaidade. No fim da noite, não resisti à coceira na língua e perguntei ao Jaime Junior: "Jaime, pra que time torce o Márcio Resende?" E ele, com a elegância que é peculiar aos Jornalistas, me respondeu: "Olha, Guilherme, não posso falar. Nós, Jornalistas, temos um acordo entre nós, de não abrirmos essa informação ao público".
Não sei o que foi pior, descobrir que existe esse tipo de acordo ou descobrir que o Márcio Resende de Freitas é Jornalista.
23 janeiro 2010
De volta à terapia
Não, não sofro de nenhum tipo de sensibilidade aguda. Meu sumiço mais tem a ver com falta de tempo e de “saco”. É triste, pois a muamba dessa banca é a crônica, e é do corriqueiro que ela surge e se enche de graça. Não dá pra dizer que faltou assunto. Cronista sofre de falta de inspiração, assunto, jamais. Mas tenho visto tanta coisa indigesta no mesmo prato que a vontade de escrever saiu de fininho. As coisas perversamente engraçadas ou comicamente tristes estão todas aí, sem graças, de tanto se repetirem. E as manchetes de enchentes, terremotos, Congresso, Dilma, Lula, Obama e Vanderlei Luxemburgo me levaram a uma deliciosa depressão pós-férias. Sim, eu poderia ter descrito outro Amor de Arnaldo, poderia ter publicado meus poemas escondidos na tal Meus Documentos, poderia repetir a crônica de Dezembro do ano passado (“O que desejo no próximo ano”). Ou poderia publicar uma carta finíssima ao presidente mais cínico da história desse país. Não consegui. Voltei com essas linhas que vos falam graças aos pedidos de três leitores amigos (coitados, devem ser meus únicos leitores). Como disse o Spam, nossos posts são gritos no telhado. Como esse mundo de blogs é uma megalópole esquizofrênica com todo mundo se esgoelando ao mesmo tempo, sabemos que não seremos ouvidos. Mas eu também grito. Essa é a minha terapia.
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