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09 dezembro 2009

Memória de uma noite sem fim

Nunca me esquecerei daquela noite sem fim
embalada no meu sono ausente que, sozinho, velava por mim. 

A chuva caía mansa enquanto a brisa refrescava minha face, franzida, 
pelo esforço das pedaladas. Eu respirava ofegante. 

O vento assobiava uma canção em meus ouvidos, 
como que um prelúdio de Bach ao encontro de duas almas amantes. 

Da esquina vi, no alto da ladeira Antônio Rodrigues, 
ele me esperando para partir. 

Rijo, hirto, ao pé do portão de sua velha casa. Cheguei perto. 
Seus olhos cansados me fitaram com amor. 

Tentava, em vão, esconder dos meus os seus suspiros, 
e sopros de angústia planavam em seu peito. 

Só eu podia ver, lá dentro, através dos seus olhos esverdeados, 
todas aquelas nuvens negras, incapazes de evitar o sorriso sincero no canto de sua boca. 

E a madrugada fria se acomodava, enquanto subíamos a ladeira.
Minhas gabolices tentavam saltar para fora, mas não tinham importância.

As contive sem esforço. Chegamos. O carro deixamos à porta, como era sempre. 

E como era sempre ele rangia os dentes, com a cabeça erguida, 
como um guerreiro pauseando uma batalha sem fim. 

Eu queria abraçá-lo ali mesmo, mas não sabia o quanto me seriam cruéis as regras do tempo, 
que não volta jamais. 

Sua mão pesada afagou meu ombro, e ao depositar sobre um móvel os seus pertences, 
pendurou os óculos e esfregou os olhos. 

E deu um suspiro terno, ao me estender uma toalha branca: "Enxugue a cabeça, meu filho. 
Não durma com a cabeça assim".

PS: Pai, você é a luz da minha vida!