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25 abril 2016

Game of thrones

Está aberta a temporada de decadência absoluta do ser humano. É só se fala dá última temporada de Game of thrones, essa série que até vovó já viu e eu não.

Na verdade assisti dez minutos de um episódio dela. Parei no décimo minuto, por puro preconceito de gênero. (Gênero literário).
Foi assim: Fredinho fez aquela propaganda: “Véi, você tem que assistir GOT, véi. Puta que pariu. Você tem que assistir”. E me fez jurar que assistiríamos juntos naqueles dias em que eu estava em Moc.

Tava tudo dando certo. Ele fez pipoca (de panela!). Deixou a sala gelando com 18 graus. A iluminação perfeita. Imagem blue rei naquela TV enorme. Som de cinema num home theater do capeta. Tudo o que todo gordo situado em Montes Claros pediu a Deus. (Eu era gordo). Fiquei vidrado nos primeiros minutos. "Que cenário fantástico, deve ser filmado na Irlanda”, comentei. 

Aquela violência gostosa já desenrolava numa trama política épica que me envolvia, e eu já percebia uma subtrama religiosa se articulando ali na frente. Nem piscava. Que texto. Que enredo.

Até que me aparece um dragão na cena. Uma brochada épica. “Puta que pariu, Fredinho. Dragão, porra?”

Eu não sabia que a série tinha elementos de fantasia. Não estava preparado pro dragão. Larguei GOT aos dez minutos. Levantei e fui tomar minha cerveja lá fora.

13 abril 2016

O Rio de Janeiro

Rio, 08 de Fevereiro de 2016.

Demorei dez anos para saber o que é BH. Eu me orgulho de poder dizer que escolhi BH pra viver. Escolhi mesmo. Olhei pro mapa do Google, pedi conta do emprego e fui. E deu certo, gras-a-Deus. Plantei amigos, me enraizei. Casei. Lá meu filho nasceu. Bradei aos quatro cantos que de lá só saia depois de morto. Pois é.

Demorei oito anos pra entender o Maleta, entende? Pra ser aceito na pelada do Betânia foram dez anos e média de três gols por partida. Foi sofrido. Aprendi a amar aquele povo desconfiado, mesmo sem nunca ter ganhado um único sorriso, um simples “bom dia” ou um mísero “obrigado” de qualquer caixa da padaria.

Agora cá estou vivendo no Rio de Janeiro. Não tive muita escolha. Ou vinha, ou não dava conta da Pampers Premium Care. Pois é. Dizer que eu já amo o Rio é forçar a barra. (Pô, tá de sacanagem?) Mas acho que já sei o que é o Rio. Olha o que aconteceu comigo.

Durante uns seis meses, acho que mais de trinta vezes, eu peguei o 368 no centro, ali próximo à Avenida Franklin Roosevelt, perto do aeroporto, em direção à Barra. Todas as vezes eu ganhava do motorista um sorriso, um bom dia e um obrigado.

Quase sempre eu ia ouvindo Caymmi, cantado por Marina de La Riva. Confesso que chorei. Na subida da serra, na Grajaú, eu sempre chorava. Dorival é foda. “Ah, se eu escutasse o que a mamãe dizia...”, “...Ah, essa saudade dentro do meu peito”. Mamãe. Saudade. Peito.

Mas daí que um dia eu tava lá, no ponto do ônibus, no centro. Dei sinal e o 368, vaziinho, não parou. Primeira vez que isso acontecia. Passou direto. Fiquei muito puto. “Filho da puuuta...”. Me acalmei vinte minutos depois, quando outro 368 apontou na esquina. Dei sinal e aquele parou. Enquanto contava as moedas eu ia resmungando para o motorista:

“Cê acredita que o filho da puta do seu colega que passou agora a pouco não parou quando eu dei sinal?”
E ele, após uma gargalhada espaçosa: “Rapá, o 368 não pode parar aqui não. Seu ponto é ali ó, você tem que andar mais uns 700 metros”. "Uai moço, mas eu já peguei esse ônibus aqui mesmo umas trinta vezes”. “É, irmãozinho, mas aqui não pode parar não. A gente para porquê a gente é sangue bom. Se o fiscal pegar eu perco a minha cesta básica, sabia?”.
Juro que naquela hora eu senti uma vontade irreprimível de dar um abraço (hétero) naquele sujeito. Aquele cara é o Rio de Janeiro.