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25 dezembro 2008

O que desejo no próximo ano

Desejo que no próximo ano todas as pessoas adultas - mesmo as iletradas - leiam Saint Exupéry, e se convençam, definitivamente, de que não são eternamente responsáveis pelas coisas que cativam. 

Desejo que no próximo ano todos os meus amigos ateus sejam convertidos e salvem suas almas, já que as mentes estão fodidas. 

Desejo que no próximo ano o Latino se torne ator de novela da Band, e se despeça do mundo da música sem o lançamento de um novo CD. 

Desejo que os políticos "menores" se explodam em manchetes e escândalos que revelem toda a sujeira escondida, com sucesso, em mais um ano que se completa. 

Que a crise global não seja mais que uma marolinha. 

Que todos os mineiros conheçam Guimarães Rosa e Paulo Mendes Campos. 

Que todos os humanos da Terra conheçam Machado de Assis. 

Que os bares e restaurantes não nos sirvam arroz dormido, whisky falsificado, nem cerveja 'um pouco gelada'. 

Que Jotinha saia da obesidade. 

Que todas as noras queiram bem às suas sogras. 

Que sejamos mais fiéis aos nossos amigos e mais amigos de nossas mulheres. 

Que os aventureiros no amor ouçam o grande Antônio Maria - o poeta, não o padre - e aprendam que é preciso amar "uma" mulher: "Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno". 

Que a saúde seja o primeiro pedido atendido das nossas orações. 

Que as famílias se reúnam em harmonia. 

Que os nossos negócios entrem no eixo da prosperidade. 

Que o nosso conceito de sucesso não se resuma aos extratos bancários. 

E que no próximo ano todos acreditem no poder de fazer grandes coisas, desde que cultivemos grandes virtudes. Isso é tudo o que desejo no próximo ano.

01 dezembro 2008

A dor da perda

Aqui vai uma homenagem ao meu amigo Danilinho... com uma humilde reflexão sobre um momento verdadeiramente triste pelo qual passamos!



Danilo Campos não é o tipo de cara que você simplesmente ama ou odeia. Como ocorre com quase todas as pessoas polêmicas, é possível amá-lo e odiá-lo ao mesmo tempo, no mesmo dia, sem abrir mão de dizer-lhe, carinhosamente, o quanto ele é chato. Danilo é do tipo de pessoa a quem não se pode fazer qualquer comentário, sobre qualquer assunto, sem esperar de rebate uma opinião contrária. O sujeito é o exemplo morto-vivo do que se pode chamar: “do contra”. E a coisa piorou quando ele descobriu que algumas pessoas (na verdade muitas pessoas) acham graça nisso. Elogie uma mulher ao Danilo, e ele imediatamente descobrirá um dente torto ou uma leve perda do paralelismo entre os olhos da mesma. Em seguida a chamará de vesga. Confidencie ao Danilo suas gabolices de sua própria boemia (ou balada, para os mais jovens), e ele o dirá o quanto você é canalha, fútil e cretino. E o abraçará com todos os seus abraços.

Mas Danilo é o sujeito com quem se pode contar. Companheiro e voluntarioso. Prestativo e teimoso. Seus gestos carinhosos sempre contrastaram com a acidez das suas palavras. Seu maior defeito sempre foi carregar o hábito de dizer a verdade que se esconde por trás das coisas que - às vezes - não queremos ver, e que por isto, não vemos.

Era uma manhã de sábado quando recebi um telefonema incomum. Do outro lado a Dona Fátima, mãe dos meus amigos Leandro e Leonardo. Suas primeiras palavras me deixaram confuso, e as próximas foram me deixando com um frio que nunca havia sentido, nem no alto do vulcão Cotopachi. Dona Fátima me trouxera a notícia de que Danilo sofrera um grave acidente de automóvel nas proximidades de Sete Lagoas, ao qual não teria resistido. Leandro e Leonardo não estavam em condições de pronunciar palavra. A família do morto já teria sido avisada. A última notícia que se tinha era a de que todos aguardavam a liberação do corpo pelo IML de Sete Lagoas. Conheci nesse momento a força e o peso da angústia. No meu peito pulsava uma dor aguda que irradiava para a cabeça e tornava quente o meu rosto. As lágrimas desciam involuntariamente, e o desespero não me permitiu manifestar qualquer resposta à Dona Fátima. Ao meu redor, meus pais e irmãos olhavam-me com todo o desespero com que se perde a quem se ama. Larguei o telefone em descontrole. Com as mãos na cabeça sentei-me num banco de madeira sem responder aos que me cercavam com as perguntas óbvias. Dizia, repetidamente, afogando em lágrimas, as palavras mais sinceras que já saíram da minha boca: - “Perdi o meu amigo”. Assim fui apresentado à dor da perda.

Mesmo após muitas horas de desespero, incrédulo, eu ligava, insistentemente, para o celular de Danilo. Todas as minhas ligações – inúteis – me faziam pensar na vida. O único Japonês preto do planeta era meu amigo e estava morto. Tudo perdeu o sentido. A vida, por instantes, pareceu-me um medíocre jogo de idiotas disputando um prêmio desconhecido. De que valem todas as coisas, se tudo se perderá repentinamente, sem sequer uma última chance de desfrute ou despedida, sem direito de defesa? E a cada telefonema de outro amigo derramado em prantos, a dor se fazia maior. As nossas lembranças se tornavam vivas, com palavras, sons, lugares, sorrisos e lágrimas.

Mas as informações sobre o tal IML não se confirmavam. Os colegas da Cemig, que continuavam sem saber o paradeiro de Danilo, tampouco conheciam seus planos de viajar a Sete Lagoas. Por toda a cidade a notícia se espalhou rapidamente, e milhares de pessoas, conhecidas ou não, choravam a perda de um sujeito muito chato. Sua mãe, amparada pela família, mostrava não ter mais forças para respirar a vida. Foi quando o desespero encontrou a esperança.

Meu telefone tocou e senti o medo exalar ao ver o visor do aparelho. O toque do telefone pulsava acelerado, ritmando-se com os meus batimentos, enquanto o nome de Danilo piscava na tela. Atendi e ouvi a sua voz, como se pudesse ver o seu tradicional sorriso irônico:

- “Quem me matou aí moss?” A notícia de sua morte já havia chegado até o morto. Tudo não passou de um trote, um infeliz trote, feito por um outro amigo (muy amigo) seu, que por pouco não precisou sair fugido da cidade. Não obstante a reconhecida fama de farrista e cachaceiro do morto, toda a situação favorecia a versão do trotista.

Pois eis a história do dia em que perdemos um amigo e o tivemos de volta. Tivemos o privilégio de cessar as nossas lágrimas com um sorriso doce e de várias tonalidades, ao mesmo tempo em que nos era dado o ombro amigo pelos que juntos sentiam a nossa dor. Que não seja verdade e que a pessoa reapareça com um sorriso irônico. Esse é o desejo, inalcançável, de todos que perdem uma pessoa amada.

Danilo teve o privilégio de saber o quanto é amado por todos. E a morte, essa velha misteriosa que não avisa nem negocia, me mostrou, mesmo sem vir, o quanto somos frágeis diante de sua magnitude. Cruel. Irremediável. Não podemos enfrentá-la. Por isso é melhor mesmo acreditar que ela e a vida não são contrárias, são irmãs. Podemos apenas viver a nossa fragilidade, rezando aos céus para que ela tarde um pouco mais, e que quando vier, que venha de forma mansa, sem dores nem humilhações. Que ela nos encontre cercado por amigos, bem longe dos CTI's. E que a vida, sua irmã, cuide bem dos que nos amam, e ficam.