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18 novembro 2008

Nos Montes Claros de hoje

Das coisas boas da vida, uma das melhores é o papo no buteco com os amigos. De um desses surgiu a idéia de comentar a vida e as transformações que nos cercam, algo que caminha junto com a razão de ser desse blog. Como comentarista do cotidiano, trago em meu humilde breviário de histórias algumas observações acerca da nossa Montes Claros de hoje. Uma visão que abriga sensações dispersas, que se confundem entre o otimismo e o pessimismo. Que comenta o orgulho cívico pelo progresso, pela crescente verticalização da nossa cidade, dando menos atenção à sua periferização, ao desassossego recente das suas ruas, becos e praças. Não olhei fundo nas miudezas e circunstâncias da vida montes-clarense, mas decidi trazer uma modesta lembrança das mudanças mais recentes ao nosso redor, muitas às quais têm passado despercebidas aos nossos olhos.

Começo informando aos navegantes que Montes Claros perdeu a timidez. O “complexo-de-pobre” a que se sujeitava a Princesa do Norte não mais desanima os seus habitantes, embora muitos pessimistas da terra insistam em classificá-la como tal. Capitaneando uma população regional com mais de dois milhões de habitantes, Montes Claros respira ares de capital – porém com umidade relativa do ar na casa dos 10%, tipo deserto – e todos se orgulham da chegada do tão esperado progresso prometido. Desta vez não foi nenhuma Sudene. Vemos agora uma robusta indústria da Educação, um consolo providente e um belo modelo de salvação para os milhares de combatentes das batalhas dos vestibulares públicos. Temos agora várias facilidades, quero dizer Faculdades, para absorver a gigantesca demanda reprimida de jovens e adultos ávidos por conhecimento, diploma e emprego (não necessariamente nesta ordem), disponibilizando ao mercado profissionais de todas as áreas, de todos as classes e com todos os níveis de qualificação. O grande número de profissionais de alto nível trazido dos grandes centros – pelas grandes empresas – também contribuem, anônima e discretamente, para a formação dos jovens profissionais que conseguem a sua colocação (como exemplo este humilde escriba). É mão-de-obra super qualificada a serviço da formação de um povo ainda em aprendizagem.

A Educação e o Comércio tem sido a nossa alavanca. Embora a seca continue castigando todo o sertão norte mineiro – nos últimos 23 meses foram 15 de seca e chuvas abaixo da média histórica, contabilizando uma perda de 190 mil cabeças de gado nos últimos dois anos – a economia de Moc City cresce bem acima da média nacional. Num intervalo modesto de cinco anos aportaram-se grandes redes varejistas, seis novas concessionárias de veículos, várias lojas de grifes, uma grande usina de Biodiesel e três grandes traficantes de drogas de São Paulo e Belo Horizonte. A cidade ainda ganhou uma escada rolante, para gáudio dos moradores do Major Prates e adjacências. Coisas de cidade grande!

E se o progresso se instala, é comum que as pequenas empresas sofram com a concorrência. No setor de entretenimento (não resisto à citação do exemplo), os antigos pequenos cabarés deram lugar a uma grande casa noturna que atualmente colore as noites montes-clarenses. Diz-se que o recinto abriga damas-da-noite sofisticadas, provenientes de várias partes do país, dançarinas do “belo” Funk carioca e das “espetaculares” coreografias do Axé baiano. Entre as principais atrações, comenta-se sobre os shows protagonizados por belas mulheres envoltas em cobras de verdade. Tá vendo? Coisas de capital.

Já a política em Moc City, não mudou muito nos últimos cento e cinqüenta anos, exceto pela alteração no número de eleitores e candidatos. Os clãs: Pereira, Ribeiro e Athaíde continuam jogando a dança-das-cadeiras e, sistematicamente, os principais disputantes dos principais cargos eletivos são sempre descendentes sanguíneos ou apadrinhados desses mesmos grupos tradicionais. Exemplo fidedigno foi a disputa do último pleito, onde os três principais candidatos assim poderiam ser classificados. Seguindo a mesma tradição política nacional, nossos políticos montes-clarenses passam de inimigos mortais a grandes aliados com uma facilidade religiosa.

E como em todas as cidades onde o progresso se fez presente, seja pela importância política-econômica do município, por sua localização geográfica, ou pela simples concessão divina representada pela herança de riquezas naturais, é impossível, graças a costumeira ausência de políticas públicas, evitar que junto ao crescimento não venham a violência, a desigualdade social, o caos no trânsito e a corrupção. Tudo isso também se faz presente na Moc City de hoje.

Por fim, informo ao amigo leitor que nos Montes Claros de hoje:

Não se dança mais um bolero tocado ao vivo no Xandú; Não se joga mais pelada na rua; O Redondo agora é quadrado; A Open House virou buteco; O Pilangos não é mais bem freqüentado; O Ateneu continua abandonado; O Cassimiro continua respirando; O Bonga continua vivo; A Tia Ceiça desapareceu; Cerveja gelada ainda se bebe no Soró (e no Mapa de Minas); Sanduíche ainda se come no Tonis (e no Jordan); O vagão só existe em cima dos trilhos; Feijoada ainda se come no Tip-top; A política ainda se discute no Café Galo (e no Skema Kente); O almoço ainda se come no Automóvel Clube (e no Favoritto); O mirante do Sapucaia não é mais ponto de sarro; A Copa TV Montes Claros agora é Copa Intertv; O Instituto E. C. agora é São Mateus; A famosa equipe do Biotécnico agora é Unimax (Mas o Dêra continua lá); A festa do Pentáurea continua com a mesma fila; Não se joga na Flamarion Wanderley sem autorização da favela; Montes Claros agora tem Axé Montes; O Axé Montes tem ensaio; A prefeitura ainda faz o Carnamontes; O Carnamontes continua tendo assalto; Música se ouve no Curral do Boi; Cachorro quente ainda se come no Zé; Pizza se pede na Doratta; Coberta Suja agora é Cidade Industrial; O Ribatejo não tem mais o mesmo charme; A Fujinor virou hipermercado; Tião Prates não quebra mais o galho; Juninho Moleque ainda pega as menininhas; Feira se faz pela internet; Balada agora é que é no Armazém; Churrasco ainda se come no Chimarrão; Sorvete ainda se toma na Doçura; Os luais no Pentáurea não são mais na portaria (e o Seu Antônio continua lá); A Minas Brasil abre uma loja por mês; O Mackenzie continua revelando craques; Cabelo ainda se corta no Juarez; Barba ainda se faz no Moisés; Roupa ainda se compra na Dr. Veloso; Caderno ainda se compra na Palimontes; Livro não se compra mais na Espaço Aberto; O centro agora é filmado; O Marista não consegue mais lotar as suas turmas; Bibop continua pegando pênaltis; Na Escola Técnica não estuda mais filho de pobre; O campeonato do Max-Min agora tem craque paulista; Sinuca ainda se joga no Chicão; Janjão ainda tem dezoito anos; Jovanilson continua gordo; O Rio Vieira continua poluído; Os pequenos traficantes foram mortos pelos grandes; As ruas foram sinalizadas; As praças foram reformadas; Os parques foram abandonados; Os vereadores foram presos; e acreditem: Tadeu vai ser prefeito novamente.

02 novembro 2008

JK: De Caçarema para o Mundo

O registro que se faz necessário hoje, para que não se perca no tempo a clareza nas memórias, conta como se deu o início de uma divulgação despretensiosa, que tomou corpo e correu o Brasil, acerca de personagens históricos das nossas Minas Gerais. De fato, os personagens são mais interessantes que o fato. No centro da história se encontra o nosso amigo Jovanilson, um sujeito que nos ensina “sem querer” a gostar da vida e das pessoas. Ele, uma versão tipicamente norte-mineira do Riobaldo de Guimarães Rosa, com seu jeitão simples carrega o orgulho e o não-abrir-mão de ser sertanejo, encantando os que o cercam com o seu singelo jeito bruto de ser e mostrando ao mundo o que é o tal do carisma.

Tudo foi contado em Montes Claros, numa noite quente de carne de sol com mandioca e cerveja gelada. O causo não causou espanto. Em conversa de ilustres, homens de poder e prestígio rodeados pela malandragem norte mineira, outro resultado não se podia esperar.

Presentes, representando as tais pessoas ilustres, estavam o Sr. Cesar Garcia, homem de peso, Vice Presidente da Rede Intertv – emissoras afiliadas Rede Globo – e sua digníssima senhora, ambos provenientes de São Paulo; o Gerente Regional da emissora Intertv Grande Minas, Sr. Fábio Braidatto, homem sério, que atualmente sustenta sucesso nos gramados do Max-Min Clube, também este advindo de São Paulo; e o Gerente Comercial desta mesma emissora, Sr. Annibal Gonçalves, palestrante requisitado, que embora seja um Carioca Bossa Nova dos mais ilustres, carrega no currículo uma brilhante carreira “nômade” – toda dedicada à televisão brasileira – e coleciona títulos de cidadão honorário de mais de oitenta cidades no Brasil e no mundo afora.

Representando a malandragem norte mineira – e para garantir a fidelidade do registro é necessário que se faça a citação dos apelidos, já que é sabido que malandro se conhece por apelido – se faziam presentes eu, então reles Executivo de Contas da empresa citada, vulgos Gui e Filhô; Rogério Silva, vulgos Paraná e Filhô, também reles “Contato” e Pecuarista, sujeito afamado pelo talento na arte da conquista das mulheres, foi enviado à malandragem norte mineira em situação de “fuga-de-noiva” do interior do Rio de Janeiro, mas é proveniente da famosa Quinta do Sol – cidade importante da zona rural do estado do Paraná; e Jovanilson Silva, vulgos: Don Juan do Sertão, Jojô, Jotinha, Tranquera, Boizão Empacado, Piu e Filhô, este proveniente da famosa Caçarema, distrito mais importante do município de Capitão Enéas, protagonista maior desta história, personagem muito querido no grande Sertão Norte Mineiro.

A turma dos ilustres, embora suas posições recomendassem uma certa distância dos pobres incautos em sua companhia, mostrou a simplicidade que sempre se fez presente no seu convívio com os subordinados. Pessoas cultas, educadas e inteligentes, se juntaram mas não se misturaram, como disse o ilustre carioca que estava presente. A turma dos malandros, como de costume, se sentiu à vontade, bebendo com classe, com um ar blasé de quem tem savoir faire e está de bem com a vida.

Pois em poucas horas o papo passou pela política, futebol, televisão, economia e cultura. A turma dos ilustres relembrou os seus velhos amigos dos bons tempos de TV Tupi, de TV Globo e de Rádio Globo, personalidades importantes que brilharam no auge do glamour da TV e do Rio de Janeiro, no Brasil de muitos Janeiros atrás. Para a turma dos Malandros, o silêncio de Jotinha era motivo de preocupação: Quando resolvesse falar, coisa boa não sairia. Paraná aproveitou o papo sobre Pecuária, adiantou-se e discorreu sobre sua criação de gado no norte de Minas. Ficamos orgulhosos.

O papo corria solto, alegre, embalado nas piadas do Sr. Annibal. Aproveitei a deixa e participei da conversa, quando a Ilustre Senhora começou a falar de Minas. Relatara, com o apoio empolgado do marido, o encanto que adotaram pela riqueza cultural e historiográfica do nosso estado. Falamos de Grande Sertão: Veredas, de Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey e Mariana. Falamos das obras do Aleijadinho em Congonhas.

Jotinha permanecia calado, feito coruja, observando a todos. Dividíamos o mau presságio até que o assunto parou em Diamantina. A digníssima senhora, a despeito da nossa apreensão em torno do sujeito calado que já sinalizava o impulso de se manifestar, falou sobre Juscelino. Disse que o seu próximo destino em Minas seria o lugar onde JK nasceu, conheceria sua casa, suas praças, seus jardins, ruelas e becos que eram palco das grandes serestas.

Foi nesse momento que ocorreu a fatídica interpelação de Jotinha. Com firmeza na voz, semblante sério e cabeça erguida ele abriu parênteses nas palavras da Ilustre.

- Quem foi que disse que Juscelino é de Diamantina?

A partir daí o sujeito emendou frase-em-frase e se tornou o centro das atenções. Todos se viam extasiados com suas palavras, atônitos, em silêncio, observando as novidades que ouviam. Nós, da turma dos Malandros, segurávamos o riso, desesperadamente. A revelação de Jotinha dizia que JK era, na verdade, nascido em Caçarema. Por lá fora criado até os sete anos de idade, quando foi levado para Diamantina graças às estripulias amorosas de sua mãe. De Diamantina JK teve o destino que todos nós conhecemos, até ser consagrado como um dos mais importantes homens da nossa história política.

Atualmente, sabe-se que a versão de Jovanilson – o Jotinha – foi levada para o Rio de Janeiro e São Paulo e correu o Brasil. Deste dia em diante, em várias outras rodas de “ilustres” pelo Brasil afora, não faltará quem defenda a verdadeira saga de JK, o menino que saiu de Caçarema para ganhar o mundo.