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03 junho 2018

Forza, Peter!
#Rio2016

Rio, 13 de agosto de 2016.

Fizeram um aglomerado de Food Trucks quase em frente ao Parque Olímpico, bem perto da minha casa. Ali na área do estacionamento da Droga Raia, na Abelardo Bueno. O lugar fica lotado madrugada afora. Atletas, jornalistas, turistas e cariocas curtem a magia do sereno olímpico.

Saí do trabalho às 21h00, após duas mensagens do meu amor lembrando do leite de Arthur. Passava das onze quando cheguei lá. O lugar já lotado. Nunca, nunca, nunca na minha vida eu vi tanta gente bonita num lugar só. Me enfiei na multidão, atravessei e entrei na farmácia. A fila estava enorme. Enquanto esperava eu assistia a cena que vou contar agora.

Lá fora, bem próximo à vitrine e colado à porta de entrada, um rapaz com agasalho da Holanda discursava para uma moça. Cismei que ele é atleta do ciclismo. Saradão, acho que um metro e noventa. Olhos azuis e cabelos muito loiros espetados pra frente. Boa pinta.

A moça, também com agasalho da Holanda, era absurdamente linda. Uma Gisele Bündchen com o rosto ainda mais bonito, só que com aquela bundinha de frango, assim pra dentro.

Ele gesticulava, nervoso. Os olhos marejados, coitado. E salivava em desespero com a reação dela. Porque ela simplesmente ria pra ele, calada, se movendo como que em câmera lenta, completamente alheia ao que ele dizia, jogando a cabeça lentamente para um lado e para o outro. Talvez tivesse fumado um artesanal. Ou talvez estivesse preparando um movimento de esquiva a uma possível tentativa de agressão ou de beijo. Quem sabe.

De repente ela dá de costas e deixa o ciclista falando sozinho. Deu quatro passos rumo a um grupo que estava perto. Vocês não vão acreditar. Ela estendeu a mão, ainda com aquele sorrisinho doce de Capitu holandesa, puxou o cara com agasalho da Itália e lascou-lhe um beijo fervoroso. Parecia que ia engolir o sujeito. (Não vou descrever o italiano, para não dizerem que a minha bicicleta solta a corrente; digo apenas que o filho da puta era boa pinta também). O outro continuava lá, estático, os olhos mais tristes do Rio 2016.

Paguei o leite e saí. Mirei no crachá do coitado. Se chama Peter. Vejam como são paradoxais as ironias da vida. Eu, quase gordo, quase careca, quase quebrado, que saí de casa às sete da manhã pra ralar em Del Castilho, e que às onze ainda tentava voltar pra casa, estava ali morrendo de dó do Peter.

A vontade que deu foi de dar um abraço (hétero) nele, e, com todo o peso da minha bagagem de vida sertaneja, dizê-lo meia dúzia de palavras de amigo, a fim de confortá-lo por aquela dor de corno, que é universal.

Talvez lhe dissesse: “Porra, Peter, levanta essa cabeça. A vida não é aquela descidinha de Grumari com a vista do Recreio, não, cara. A vida, amigo, é uma Ilha Stromboli cercada de desilusões por todos os lados”. E enquanto comíamos um hot dog gourmet de dez dólares, eu talvez lhe contasse um ou outro caso antigo lá de Minas.

Mas o leitinho estava comprado e o meu filhinho estava com fome. Entre chorar ele e chorar o Peter, chorou o Peter.

25 abril 2016

Game of thrones

Está aberta a temporada de decadência absoluta do ser humano. É só se fala dá última temporada de Game of thrones, essa série que até vovó já viu e eu não.

Na verdade assisti dez minutos de um episódio dela. Parei no décimo minuto, por puro preconceito de gênero. (Gênero literário).
Foi assim: Fredinho fez aquela propaganda: “Véi, você tem que assistir GOT, véi. Puta que pariu. Você tem que assistir”. E me fez jurar que assistiríamos juntos naqueles dias em que eu estava em Moc.

Tava tudo dando certo. Ele fez pipoca (de panela!). Deixou a sala gelando com 18 graus. A iluminação perfeita. Imagem blue rei naquela TV enorme. Som de cinema num home theater do capeta. Tudo o que todo gordo situado em Montes Claros pediu a Deus. (Eu era gordo). Fiquei vidrado nos primeiros minutos. "Que cenário fantástico, deve ser filmado na Irlanda”, comentei. 

Aquela violência gostosa já desenrolava numa trama política épica que me envolvia, e eu já percebia uma subtrama religiosa se articulando ali na frente. Nem piscava. Que texto. Que enredo.

Até que me aparece um dragão na cena. Uma brochada épica. “Puta que pariu, Fredinho. Dragão, porra?”

Eu não sabia que a série tinha elementos de fantasia. Não estava preparado pro dragão. Larguei GOT aos dez minutos. Levantei e fui tomar minha cerveja lá fora.

13 abril 2016

O Rio de Janeiro

Rio, 08 de Fevereiro de 2016.

Demorei dez anos para saber o que é BH. Eu me orgulho de poder dizer que escolhi BH pra viver. Escolhi mesmo. Olhei pro mapa do Google, pedi conta do emprego e fui. E deu certo, gras-a-Deus. Plantei amigos, me enraizei. Casei. Lá meu filho nasceu. Bradei aos quatro cantos que de lá só saia depois de morto. Pois é.

Demorei oito anos pra entender o Maleta, entende? Pra ser aceito na pelada do Betânia foram dez anos e média de três gols por partida. Foi sofrido. Aprendi a amar aquele povo desconfiado, mesmo sem nunca ter ganhado um único sorriso, um simples “bom dia” ou um mísero “obrigado” de qualquer caixa da padaria.

Agora cá estou vivendo no Rio de Janeiro. Não tive muita escolha. Ou vinha, ou não dava conta da Pampers Premium Care. Pois é. Dizer que eu já amo o Rio é forçar a barra. (Pô, tá de sacanagem?) Mas acho que já sei o que é o Rio. Olha o que aconteceu comigo.

Durante uns seis meses, acho que mais de trinta vezes, eu peguei o 368 no centro, ali próximo à Avenida Franklin Roosevelt, perto do aeroporto, em direção à Barra. Todas as vezes eu ganhava do motorista um sorriso, um bom dia e um obrigado.

Quase sempre eu ia ouvindo Caymmi, cantado por Marina de La Riva. Confesso que chorei. Na subida da serra, na Grajaú, eu sempre chorava. Dorival é foda. “Ah, se eu escutasse o que a mamãe dizia...”, “...Ah, essa saudade dentro do meu peito”. Mamãe. Saudade. Peito.

Mas daí que um dia eu tava lá, no ponto do ônibus, no centro. Dei sinal e o 368, vaziinho, não parou. Primeira vez que isso acontecia. Passou direto. Fiquei muito puto. “Filho da puuuta...”. Me acalmei vinte minutos depois, quando outro 368 apontou na esquina. Dei sinal e aquele parou. Enquanto contava as moedas eu ia resmungando para o motorista:

“Cê acredita que o filho da puta do seu colega que passou agora a pouco não parou quando eu dei sinal?”
E ele, após uma gargalhada espaçosa: “Rapá, o 368 não pode parar aqui não. Seu ponto é ali ó, você tem que andar mais uns 700 metros”. "Uai moço, mas eu já peguei esse ônibus aqui mesmo umas trinta vezes”. “É, irmãozinho, mas aqui não pode parar não. A gente para porquê a gente é sangue bom. Se o fiscal pegar eu perco a minha cesta básica, sabia?”.
Juro que naquela hora eu senti uma vontade irreprimível de dar um abraço (hétero) naquele sujeito. Aquele cara é o Rio de Janeiro.

02 dezembro 2013

Sorriso de Filho pequeno


Não há nesse mundo melhor remédio para Pai que sorriso de Filho. Do sorrisinho discreto, daquele que repuxa de lado a boquinha ainda fechada, ao sorriso largo, com a bocona aberta prestes a morder o Pai, todos são milagrosos. E causam um vício deveras saboroso. Os olhinhos se fecham quase por completo, e da fresta que fica, irradiam uma luz branca que clareia a alma inteirinha do Pai bobão. A luz que vem, vertiginosa, espanta os bichos feios da vida que por lá esvoaçam, fazendo d’alma do Pai um palácio vistoso, quente, intocável, no meio de um paraíso ermo de paz.

Não há mal no mundo de Pai que resista a sorriso de Filho. Pesquisas sagradas revelam ainda que quanto menor o Filho, maior o poder do sorriso. Pai que ganha sorriso de Filho pequeno ao anoitecer, tem garantia de sono sereno e profundo, além de bons sonhos. Já o Pai que ganha sorriso de Filho pequeno ao amanhecer, tem chance zero de morrer de qualquer mal, embora, claro, há Pai que desejaria que o mundo acabasse naquele exato momento, para que morressem logo juntinhos, ali, daquele jeitinho, abraçados, com a alma eufórica do Pai toda iluminada, e aquele sorriso gostoso parado no tempo. Pobre Pai inquieto, ele sabe que os sorrisos são eternos, mas que logo deixarão de ser só seus.

28 outubro 2013

Um dedo médio levantado


Dia desses li, não sei aonde, um texto da minha querida Carol Bensimon em que ela diz que a Literatura é a coisa mais transgressora dos dias de hoje. Me lembrei disso hoje no fim da tarde, quando parei no semáforo da Senhora do Carmo e fiquei ali, observando, no ponto de ônibus ao meu lado, várias pessoas cansadas. Algumas de pé. Todas no celular. Ninguém olhava para o céu ou para o trânsito. Ninguém olhava o asfalto quente, sofrido, cansado do peso dos carros e da vida. Ninguém pensava na vida, eu acho.

Esse é o nosso mundo. Você não pensa. Não dá tempo. E no que te sobra, você se distrai. Sempre. Apressadamente. Você não formula mais frases, copia e cola. Não tem uma ideia, repete as prontas. Não conversa mais de dois minutos ao telefone com um amigo. Não senta na porta de casa. Não vai a pé à padaria. Não visita suas tias. Não fecha os olhos para ouvir uma música.

Caramba, você perdeu a espontaneidade. Você prefere os seriados de trinta minutos aos filmes de duas horas. Você prefere notícias com cento e quarenta caracteres à matéria profunda da porra toda. Por que você não quer entender, quer visualizar. A verdade é que você é um imbecil correndo no mundo, cansado e sorridente, carregando vaidade, gastrite e Iphone. 

E nesse seu mundo corrido, a minha Literatura, com suas fileiras eternas de folhas e palavras sem pressa, é realmente um dedo médio levantado para tudo isso à nossa volta.

09 julho 2012

Crônica Pentaureana

Um grupo criado no Facebook para interação dos vários amigos que conviveram no Pentáurea dos anos 80 e 90, me proporcionou momentos de deliciosa nostalgia na tarde de hoje. Alguns amigos já distantes na minha memória foram voltando e restabelecendo o filme da minha vida pentaureana. Gente que como eu, conhece cada palmo daquele clube, do barranco dos bambus às trilhas de areia movediça. Uma geração incrível que não teve medo de polícia, mas aprendeu a ter medo de Seu Antônio. Mas depois falo disso.

Agora, importa registrar que o Pentáurea da minha época, antes de tudo, foi uma absoluta simbiose entre a vida e a juventude. Um cenário sem luxo nem requintes, de lembranças comuns e cotidianas numa época não menos carregada de circunstâncias afáveis, conquanto a inexistência do celular nos obrigasse a conversar uns com os outros.

Aquilo ali não era apenas um lugar bonito, verde, de friozinho gostoso à noite. Não se tratava apenas de um oásis de alívio para quem vivia no calor infernal e na sujeira de Montes Claros. O nosso Pentáurea era um universo paralelo onde todas os nossos anseios de liberdade, e todos os nossos medos, podiam ser testados.

E bastava atravessar a portaria para que não estivéssemos mais refugiados em nossos mecanismos de compensação. Ali não fazia diferença ser classe média, ser filho de funcionário do clube ou ser rico, ter um par de tênis Reebok ou Zaga, mochila da Company ou mochila jeans vagabunda, Dynavision III ou Supernintendo. Éramos todos iguais, portando nosso kit de sobrevivência: chinelos, moletons, barraca, travesseiro e cobertor. E daí que você fosse filho de deputado ou prefeito? Não. Único status possível ali, amigo, era ser filho do Diretor da semana.

Nas proximidades do campo intocável, todos acordavam bem cedo aos domingos, devido aos gritos dos peladeiros. Buiú e Tóla certamente tinham “super tweeters” na boca. Mas é necessário que se registre que, enquanto crianças pentaureanas, nossos ídolos ainda não eram Boiadeiro, Luisinho, Renato Gaúcho, Nonato ou qualquer jogador do Atlético (cuspe). Nossos craques eram Bracim, Kelé, Jarbas, Júnior Professor, Edgarzinho, Cássio, Tatu, Lalá, Chimbica e Rodrigo Macedo, entre outros que me falham agora. Meu Deus, como era bom de bola esse Rodrigo! (Me disseram que hoje ele virou “a bola”).

Já na turma dos "meninos da base", qualquer um apostaria que dali sairiam vários craques para o futebol europeu. Entre muitos, me lembro de Anísio, Teaguinho Aquino, Waguinho, Marco Pedro, Renatinho, Vinícius (meu irmão), Huguinho, Fredinho (meu irmão caçula), Gustavo, os irmãos Fabão e Flavinho Costa, Rodrigo, Túlio, Herbert, Churrasco, Pablo Mackenzie, Marcelo Bibop, Rafa Miadeira, os irmãos Tim e Rodrigo Barreto, Caio, Ignus, Danilo, Thomaz, os irmãos Fabricinho, Felipe, Fred e Gêra, Rafael Tatu, Marco Túlio, Lucas, Matheus, os trigêmeos, Saulinho e Juliano Maconha. A propósito, acho que já passou da hora de pararmos de usar esse apelido com o Juliano, até porque, se alguém na família Swertes já fumou maconha, o mais provável é que tenha sido o Ignus Swerts (mas acho que nem ele).

Voltando ao Pentáurea, por pelo menos dez anos não houve evento mais esperado e desejado que o feriado de Semana Santa no clube. Era inacreditável. Só não entrava nego de paraquedas. A cidade inteira se articulava para conseguir entrar. Não sobrava espaço nos gramados para montagem de barracas, nem nos porta-malas. As piscinas lotadas. Seu Antônio circulava pelo clube ao lado de seguranças, apanhando um a um os "penetras", exigindo documentos e explicações, que quase sempre não evitavam a expulsão do sujeito. Era comum ter um amigo expulso em meio à comoção geral. Corre daqui, corre dali, alguém implorava a ajuda de algum Diretor conhecido. Acho que o Seu Antônio não expulsava mulheres, a não ser as feias. Eu deduzia isso pelo número incontável de mulheres lindas espalhadas por todos os lados.

Drogas, que eu saiba, nunca rolou lá. Ouvi dizer que um loló apareceu uma vez. Vodka com Coca era comum. Sexo era difícil, mas alguns diziam ter conseguido. Um Miojo, na fome da madrugada, valia mais que uma peça de picanha maturada. No cômputo geral, amigos, uma acampada no Pentáurea da nossa época era a garantia de felicidade plena. Parafraseando Chico e Nonato Buzar em seu Rio Antigo, só quem viveu o que nós vivemos lá “pode entender o que é paz e amor”. Afinal...

Quem nunca pescou naquela lagoa contando pro amigo ao lado a história de um tal moleque que morreu afogado “ali, ó!” (apontando com o dedo)? Quem nunca escalou o Morro Vermelho e riscou o nome por lá, inutilmente, em alguma pedra de areia vermelha? Quem nunca entrou na fila interminável do “ping-pong” do início das noites frias? Quem nunca se amontoou no sofá de alvenaria da pequena sala de televisão pra ver novela? Quem nunca brincou de “detetive” na sacada do restaurante? Quem nunca desceu no escorregador de ferro da antiga piscina barrenta? Quem nunca pulou do toboágua? Quem nunca montou barraca entre os banheiros? Quem nunca se hospedou no “Carandiru”? Quem nunca cantou no torneio de karaokê? Quem nunca jogou peteca sob o sol de meio dia? Quem nunca tentou acertar o peso do almoço na promoção do restaurante? Quem nunca tentou ligar de graça no orelhão do capeta? Quem nunca foi ao almoxarifado pedir um colchão? Quem nunca pediu um açúcar “emprestado”? Quem nunca viu uma briga do Jaci na sinuca? Quem nunca foi chamado pelo sistema de rádio para atender o telefone, e teve que andar um quilômetro pensando que ia receber uma notícia trágica? Quem nunca dormiu na fila da secretaria pra pegar uma barraca? Quem nunca foi inquirido, pávido, por Seu Antônio, enquanto ele citava “de cabeça” o nome completo, CPF, RG, Pis-Pasep e os antecedentes criminais dos seus pais e avós?

Quem nunca se desculpou ao guarda noturno, segurando o riso? Quem nunca jogou no time de Elias? Quem nunca ouviu um “toca a bola, pirracento”? E quem nunca ganhou um apelido do Durval? Quem nunca comprou uma rifa do Maçarico? Quem nunca pegou uma bola com Seu Antônio do banheiro e só lembrou de devolver na hora de ir embora? Quem nunca arrepiou vendo de perto um solo do pandeiro de Bira? Quem nunca cantou “Vapor Barato” nos luaus da portaria e do mirante? E Faroeste Caboclo? E Tempo Perdido (putz!)? Quem nunca sofreu, no breu, um ataque de formigas? Quem nunca chamou o Juca? Quem nunca tomou banho frio? Quem nunca ficou puto com Messias roncando na sauna? E quem nunca ficou quase intoxicado com o excesso de essência? Quem nunca disputou um futsal com o ginásio lotado, jogado com raça de fazer espumar pela boca? E quem nunca assistiu ali uma final de Copa do Mundo? Quem nunca roubou abacaxi de madrugada? Quem nunca caminhou até o Posto Planalto, sem enxergar um palmo à frente, pra comprar bebida? Quem nunca dividiu o cobertor? Quem nunca flertou morrendo de frio antes da mãe da moça vir chamar pra dormir? Quem nunca beijou ardentemente ao som do vento? Quem nunca ficou até segunda, com vontade de ficar pra sempre?

22 agosto 2011

A arte de esperar

Nem sempre é doce a arte de esperar. Mas amargo mesmo, estou certo, é a indolência crescente que se percebe atrás dos balcões da vida. Após três semanas de expectativa meu processo fora indeferido pela Junta Comercial. A atendente, uma loirinha de cabelos pintados e escova progressiva, explicou-me o motivo apontando no documento os erros do contador. Com seus olhos mirando o balcão, e os dedos sórdidos batucando o teclado do computador, ela apertou com força o botão de chamada do painel. O apito soou, chamando o próximo da fila antes mesmo que eu saísse do lugar onde estava. Mal pude ouvir a última frase da moça, que se misturava com a música do painel.

Fui ao Gerente. Discursei como um ator a fim de amplificar o seu drama. Não adiantou. Não posso autorizar retificações à mão, ele disse. E sem me olhar, frio, cabisbaixo e carrancudo, terminou: "Mas autorizo acrescentar a palavra à máquina. Só que aqui não tem máquina". Sorri, claro. Pus-me a caminhar, restava-me pouco mais de quarenta minutos para retornar à Junta. Certamente a encontraria fácil em algum velho escritório das redondezas. Andei três quadras ao sair da Avenida Santos Dumond e virei na rua Rio de Janeiro, perguntando em cada porta por alguma velha máquina de escrever. Nada.

Cheguei ao exato centro da cidade, na Praça Sete, e parei de frente ao grande edifício Helena Passig. Entrei. No hall havia duas grandes filas que se formavam para os elevadores. Desviei e caminhei em direção à recepção imponente, protegida por um enorme balcão de madeira com adornos dourados. Do lado de cá do balcão estava o porteiro, um velho negro de terno e gravata, cabelos brancos, barba em dia. Com um largo sorriso ele gesticulava frente a uma elegante senhora cheia de jóias. A velha era resplandecente. Seus olhos verdes pequenos, quase fechados, disfarçavam um sorriso perdido no tempo, e as rugas não escondiam o rosto bonito, que certamente outrora perturbou corações penosos. Má que velha bonita, exclamei em silêncio a mim mesmo. Cheguei bem perto, calado, intencionalmente para interromper a conversa. Boa tarde, posso ajudá-lo, senhor? Perguntou-me o porteiro. Perdão, não queria interrompê-los, eu disse. Preciso desesperadamente de uma máquina de escrever. O senhor sabe se há alguma aqui no prédio? O velho virou-se para trás, mordendo o beiço com força enquanto fitava o painel de vidro na parede atrás do balcão. Aqui vai ser difícil encontrar, senhor. Conheço bem quase todas as salas e acho que todos só usam computador. Suspirei ofegante e o agradeci. Antes que eu me virasse fui tocado no ombro pela senhora. Eu sei onde você vai encontrar, rapaz. Ela me olhava nos olhos. Rua Tupinambás, quatrocentos e sessenta, edifício Soberano. Procure por Raimundo Monteiro no nono andar. Apertei a mão da senhora, perguntei-lhe o nome, agradeci e desci a rua a passos largos.

Era pequeno e bem judiado o edifício Soberano, embora não menos velho que o Helena Passig. O elevador, pequeno e barulhento, dava medo até no acessorista, que franzia a testa e puxava com força a alavanca cada vez que a grade da porta emperrava. Desci do elevador. O corredor era escuro. A porta logo adiante estava aberta, e uma luz fraca demarcava a sombra quadrada sobre o tapete vermelho. A sala estava impecável. O piso encerado brilhava, os velhos móveis de madeira reluziam e exalavam o cheiro do óleo de peroba. Espiei, procurando alguém. Bati com os dedos na porta e disse boa tarde em voz alta. E eis que ouço uma voz rouca responder boa tarde do fundo da sala. Dá licença, doutor Raimundo. Entrei, observando-o levantar da cadeira com um sorriso no rosto. Em que posso ser útil, meu filho? A cortesia do velho também era enternecedora. Esguio, ele usava um terno marrom, surrado, meio descorado de sol. A gravata era nova. Naquele prédio, aliás, de novo só havia a gravata do Seu Raimundo, com um perfeito nó de Pratt.

Pela pressa nem me apresentei. Retirei do envelope os meus papeis, perguntando-lhe sobre a máquina de escrever que estava ali na minha frente, sobre a mesa. E antes que eu terminasse a explicação ele já desembrulhava a máquina, ainda sorrindo, para depois puxar das minhas mãos as minhas folhas aflitas. Confirmou o texto a ser acrescentado, o lugar a bater, e bateu. Eram três folhas. Enquanto ele trabalhava na segunda eu ia contando o quanto caminhara até chegar lá. Ao mencionar o Helena Passig ele parou de sorrir, abruptamente. Ao dizer Celina Campos, gelei. O velho se levantou da cadeira. Arregalou os olhos. Celina Campos te mandou aqui, meu filho? Sim, seu Raimundo. Medo. Ele me encarava. Gente fina ela, não é? Eu disse, confuso. Muito. Você é o quê da Celina? Nada não, seu Raimundo. Ele olhou para a máquina. Perplexo, tentei decifrá-lo: É muito bonita ela, não é? Muito. Cada idade tem sua beleza, meu filho, mas o tempo não perdoa ninguém. Você esteve com Celina no Helena Passig? Foi, seu Raimundo, acabei de vir de lá, conversamos na recepção. Pálido, talvez trêmulo, o velho saiu em disparada pelo corredor do nono andar. Fiquei ali, sozinho, diante da máquina. Bati na terceira folha e corri. Na fila da Junta esperei, pensando nas esperas da vida. E pensei no Seu Raimundo, imaginando a possível amargura das suas esperas.

12 janeiro 2011

Faz de conta

"Estou vivo agora, ainda que eu prefira ter nascido noutro tempo"Francesco di Petracco - 1330

Desde que me proclamei artista (comecei pela pintura, não pela escrita), ousei definir-me um “pessimista”. E logo fiz questão de deixar-me claro que seria mais do concreto que do abstrato. Claro, também sonhei nas linhas de Drummond, mas fui movido a Bandeira até aqui. Só assim, triste, sentado à "máquina", ouvindo meus sambas, é que me sinto forte para levar esse mundo nojento do jeito que a vida quer.

A verdade é que a vida me atrapalha a fazer o que gosto. E quanto mais a vida parece boa, mais me emputeço com a incoerência nossa de cada dia. O que vale mais, o romantismo ou a vaidade? O que importa, parecer ou ser? Ora, se o negócio é ser feliz, porque não largamos essa merda de lugar, cheio de televisão, fumaça e falsidade, e vivemos na roça?

Ei de rir ou de chorar das maravilhas da minha geração? Pobre Deus-marketing onipresente, desafortunadas gostosas de photoshop, pródigos escritores de cento e quarenta letras, miseráveis piadistas em tempo integral. Malditos leitores analfabetos. Miseráveis policiais do politicamente correto.

Nasci na geração errada. Salve o bolero. Salve a Literatura, o torresmo e o boteco raiz.

Ok, nem tudo são espinhos nesse jardim mal cuidado que tanto piso. Daqui também retiro uma flor todos os dias para dar à minha amada. Esse jovem velho que chora, luta! Corre sobre a realidade, inconscientemente movido à incessante vontade de abraçar o mundo. Mas lamenta, que, no cômputo geral, esse mundo de faz-de-conta tem dado um cacete na realidade.