13 Março 2012

Garota de Montes Claros

Fiquei surpreso ao ouvir de um amigo paulistano, em São Paulo, que a minha Montes Claros logra fama internacional por prover as mais belas mulheres. Até então, eu pensava que a fama não passasse de Belo Horizonte ao Sul e de Guanambi ao Norte. Ledo engano, amigos, pois a nossa fama está se alastrando a passos largos.

Tímido ali naquela roda de bate-papo, tive que me manifestar. A paulistada presente ficou eufórica com a informação do sujeito, e já me olhava a exigir confirmação dos dados e as coordenadas geográficas do lugar. Como todo bom roedor de pequi, estufei o peito orgulhoso da minha terra e contei tudo, sem esconder nada. Comecei a frase com um forte “Moço”, e logo emendei com charme o belo e curto prelúdio do meu depoimento: “Monsclaros é inexplicável, senhores”.

 Todos se calaram de vez, olhos arregalados. Continuei:

“Lá não há sequer uma mulher feia. Há umas mais bonitas que outras. E elas são muitas. São assustadoramente lindas, sem se prender a um único padrão de beleza. Há as morenas de olhos castanhos e cabelos encaracolados, há as loiras de olhos claros e cabelos lisos, há as negras de rosto fino e sorriso largo. Mas todas elas tem a perfeita proporção entre altura, peito e bunda, e simpatia de dar inveja às aeromoças da TAM”.

Da ponta da mesa veio um “sério?”. “Sério”. E falei mais:

“Normalmente, a proporção lá é de quatorze mulheres para cada homem, mas esse número pode aumentar de acordo com a sazonalidade. E mais: não satisfeita com o número gigantesco de suas beldades, Monsclaros semestralmente realiza uma apurada seleção  por todo o norte de Minas e sul da Bahia, e convoca para seu território outras tantas lindezas de várias cidades”.

Nessa hora, amigos, já não queria mais contar tudo aos amigos paulistanos, mas eles insistiram. Mesmo contrariado, continuei:

“As mulheres de Monsclaros são muito educadas, não olham de cima, mas também não dão em cima. Pelas contas que fiz, de cada dez, sete não tem defeitos. As outras três só apresentam cicatriz nos joelhos. E as que não tocam algum instrumento, sabem cantar”.

E para não fazer muita propaganda e encerrar logo o assunto, finalizei:

“E por falar em cantar, senhores, não tenho dúvidas de que se Tom e Vinícius por lá passassem, certamente comporiam uma canção ainda mais bela que Garota de Ipanema, e talvez a chamassem de Garota de Montes Claros, tamanha seria a fascinação dos poetas”. 

27 Outubro 2011

Diga não ao xarope

Aqui vai uma homenagem aos amigos da pelada...

DIGA NÃO AO XAROPE

Era uma pelada de sábado como outra qualquer, não fosse a chuva que quase nunca aparece no Betânia Trafford. Tudo corria na mais completa normalidade. Eu fazia meus gols, William errava os seus, Neymar driblava calado, Vovô-Garoto machucava o braço, Higuita fazia suas defesas e Rogério tentava quebrar algumas pernas. De forma discreta, sem esquema de segurança, Messi apareceu por lá e bateu sua bolinha. E como de costume, Gustavo “O Gordo” não se agüentava em pé, pedindo falta a cada lance, enquanto Gustavo “O Grande” não se agüentava calado, intimidando seus adversários com ameaças de agressão física. E o Júnior... bem, o Júnior, como sempre, não fazia nada. Assim começou e assim terminou a pelada daquele sábado.

Coletes ao chão, água, Gatorade, banho frio... e demos início ao churrasco. Foi contratado som profissional. A cerveja estava trincando, a carne de sol fora importada do Norte e o samba era da melhor qualidade – sem falar na farofa, maravilhosa. O clima era perfeito e a turma era só alegria. O papo corria movido aos sorrisos e gargalhadas, e todos os momentos da excursão feita ao sertão norte mineiro eram lembrados por todos – menos pelo William, Bomba e Wendell. Após várias queixas comuns relatando dores de cabeça, Neymar gentilmente distribuiu comprimidos à turma.

E já no início da tarde os maus presságios acenavam de longe. Inesperadamente, a Renata apareceu, furiosa, para tirar daquele meio o Goiano. O Goiano se foi. Minutos depois, Vovô-Garoto deixa a festa para se juntar aos seus colegas do fã-clube “U2 é Tudo”, e ensaiar seus novos passos de dança. Pouco tempo depois, minutos antes de esconder uma peça de carne na bolsa, eis que Rogério recebe triste uma ligação da Luciana, que ordena o imediato retorno do mesmo à sua casa. Claro, ordem cumprida. E assim, um a um, a turma foi deixando a farra: Cristiano, William, Messi, Ricardinho, Ratão, Bomba, Atilla, Bracim, Salsicha e Pedro. Por lá, dizem, ficaram apenas os que tem algum comando em casa.

E eis que começa a saga do xarope. Eu, que havia bebido pouco mais de dois copos de cerveja, mas que sou admirador das bebidas destiladas, vi Gustavo “O Gordo” pôr sobre a mesa uma garrafa de whisky Red Label – o qual as más línguas dizem ser falsificado. E para não fazer desfeita, tomei pouco mais de duas doses do whisky. O papo continuava. Ao perceber a minha tosse, Neymar (sempre ele, prestativo), pegou no carro o maldito xarope. Me orientou a bebê-lo, sem considerar que naquele momento eu já havia consumido um pouco de bebida alcoólica. Bebi. A reação química foi imediata.

Deste momento em diante me lembro de pouca coisa. Me lembro da chuva que caía forte, e eu indo embora de carona com Gustavo “O Grande”. Me lembro que dentro do carro ele me olhava esquisito, com um sorriso estranho. “Então, onde você mora?” perguntou com cara de tarado. “Aqui mesmo está bom pra mim”, eu disse desesperado. Eu tentava sair do carro, mas ele não deixava. Tentei ganhar tempo, não falei mais nada. Foram longos os minutos de pânico, até que, malandramente, liguei para a minha esposa. Intimidado, talvez com medo de ela chamar a polícia, ele me levou rápido para a minha casa. Acordei no domingo sem qualquer dor de cabeça ou tosse, e o gosto de remédio durou na boca até a terça-feira seguinte. Mesmo assim, jurei que nunca mais em minha vida voltarei a beber xarope.

22 Agosto 2011

A arte de esperar

Nem sempre é doce a arte de esperar. Mas amargo mesmo, estou certo, é a indolência crescente que se percebe atrás dos balcões da vida. Após três semanas de expectativa meu processo fora indeferido pela Junta Comercial. A atendente, uma loirinha de cabelos pintados e escova progressiva, explicou-me o motivo apontando no documento os erros do contador. Ela falava apressadamente, com a frase detrás atropelando a da frente. Eu, claro, afeito à velocidade do trato moderno, não estranhei que ela sequer me olhava durante a conversa. Com seus olhos mirando o balcão, e os dedos sórdidos batucando o teclado do computador, ela apertou com força o botão de chamada do painel. O apito soou, chamando o próximo da fila antes mesmo que eu saísse do lugar onde estava. Mal pude ouvir a última frase da moça, que se misturava com a música do painel. Nada posso fazer, senhor.

Fui ao Gerente. Frente ao fulano discursei, angurriado, como um ator a fim de amplificar o seu drama. Não adiantou. Não posso autorizar retificações à mão, ele disse. E sem me olhar, frio, soberano, cabisbaixo e carrancudo, terminou: Mas autorizo acrescentar a palavra à máquina. Só que aqui não tem máquina, e vai ser difícil encontrar. Sorri, claro. Pus-me a caminhar, restava-me pouco mais de quarenta minutos para retornar à Junta. Certamente a encontraria fácil em algum velho escritório das redondezas. Andei três quadras ao sair da Avenida Santos Dumond e virei na rua Rio de Janeiro, perguntando em cada porta por alguma velha máquina de escrever. Não encontrei.

Cheguei ao exato centro da cidade, na Praça Sete, e parei de frente ao grande edifício Helena Passig. Entrei. No hall havia duas grandes filas que se formavam para os elevadores. Desviei e caminhei em direção à recepção imponente, protegida por um enorme balcão de madeira com adornos dourados. Do lado de cá do balcão estava o porteiro, um velho negro de terno e gravata, cabelos brancos, barba em dia. Com um largo sorriso ele gesticulava frente a uma elegante senhora cheia de jóias. A velha era resplandecente. Seus olhos verdes pequenos, quase fechados, disfarçavam um sorriso perdido no tempo, e as rugas não escondiam o rosto bonito, que certamente outrora perturbou corações penosos. Má que velha bonita, exclamei em silêncio a mim mesmo. Cheguei bem perto, calado, intencionalmente
para interromper a conversa. Boa tarde, posso ajudá-lo, senhor? Perguntou-me o porteiro. Perdão, não queria interrompê-los, eu disse. Preciso desesperadamente de uma máquina de escrever. O senhor sabe se há alguma aqui no prédio? O velho virou-se para trás, mordendo o beiço com força enquanto fitava o painel de vidro na parede atrás do balcão. Aqui vai ser difícil encontrar, senhor. Conheço bem quase todas as salas e acho que todos só usam computador. Suspirei ofegante e o agradeci. Antes que eu me virasse fui tocado no ombro pela senhora. Eu sei onde você vai encontrar, rapaz. Ela me olhava nos olhos. Rua Tupinambás, quatrocentos e sessenta, edifício Soberano. Procure por Raimundo Monteiro no nono andar. Apertei a mão da senhora, perguntei-lhe o nome, agradeci e desci a rua a passos largos.

Era pequeno e bem judiado o edifício Soberano, embora não menos velho que o Helena Passig. O elevador, pequeno e barulhento, dava medo até no acessorista, que franzia a testa e puxava com força a alavanca cada vez que a grade da porta emperrava. Desci do elevador. O corredor era escuro. A porta logo adiante estava aberta, e uma luz fraca demarcava a sombra quadrada sobre o tapete vermelho. A sala estava impecável. O piso encerado brilhava, os velhos móveis de madeira reluziam e exalavam o cheiro do óleo de peroba. Espiei, procurando alguém. Bati com os dedos na porta e disse boa tarde em voz alta. E eis que ouço uma voz rouca responder boa tarde do fundo da sala. Dá licença, doutor Raimundo. Entrei, observando-o levantar da cadeira com um sorriso no rosto. Em que posso ser útil, meu filho? A cortesia do velho também era enternecedora. Esguio, ele usava um terno marrom, surrado, meio descorado de sol. A gravata era nova. Naquele prédio, aliás, de novo só havia a gravata do Seu Raimundo, com um perfeito nó de Pratt.

Pela pressa nem me apresentei. Retirei do envelope os meus papeis, perguntando-lhe sobre a máquina de escrever que estava ali na minha frente, sobre a mesa. E antes que eu terminasse a explicação ele já desembrulhava a máquina, ainda sorrindo, para depois puxar das minhas mãos as minhas folhas aflitas. Confirmou o texto a ser acrescentado, o lugar a bater, e bateu. Eram três folhas. Enquanto ele trabalhava na segunda eu ia contando o quanto caminhara até chegar até lá. Ao mencionar o Helena Passig ele parou de sorrir, abruptamente. Ao dizer Celina Campos, gelei. O velho se levantou da cadeira. Arregalou os olhos. Celina Campos te mandou aqui, meu filho? Sim, seu Raimundo. Medo. Ele me encarava. Gente fina ela, não é? Eu disse, confuso. Muito. Você é o quê da Celina? Nada não, seu Raimundo. Ele olhou para a máquina. Perplexo, tentei decifrá-lo: É muito bonita ela, não é? Muito. Cada idade tem sua beleza, meu filho, mas o tempo não perdoa ninguém. Você esteve com Celina no Helena Passig? Foi, seu Raimundo, acabei de vir de lá, conversamos na recepção. Pálido, talvez trêmulo, o velho saiu em disparada pelo corredor do nono andar. Fiquei ali, sozinho, diante da máquina. Bati na terceira folha e corri. Na fila da Junta esperei, pensando nas esperas da vida. E pensei no Seu Raimundo, imaginando a possível amargura da sua espera.

12 Janeiro 2011

Faz de conta

"Estou vivo agora, ainda que eu prefira ter nascido noutro tempo"Francesco di Petracco - 1330

Desde que me proclamei artista (comecei pela pintura, não pela escrita), ousei definir-me um “pessimista”. E logo fiz questão de deixar-me claro que seria mais do concreto que do abstrato. Claro, também sonhei nas linhas abstratas de Drummond, mas fui movido a Bandeira até aqui. Só assim, triste, sentado à máquina, ouvindo meus sambas, é que me sinto forte para levar esse mundo nojento do jeito que a vida quer.

A verdade é que a vida me atrapalha a fazer o que gosto. E quanto mais a vida parece boa, mais me emputeço com a incoerência nossa de cada dia. O que vale mais, o romantismo ou a vaidade? O que importa, parecer ou ser? Ora, se o negócio é ser feliz, porque não largamos essa merda de lugar, cheio de televisão, fumaça e falsidade, e vivemos na roça?

Ei de rir ou de chorar das maravilhas da minha geração? Pobre Deus-marketing onipresente, desafortunadas gostosas de photoshop, pródigos escritores de cento e quarenta letras, miseráveis piadistas em tempo integral. Malditos leitores analfabetos. Miseráveis policiais do politicamente correto: Nasci na geração errada, só isso. Salve o bolero. Salve a Literatura.

Sim, nem tudo são espinhos nesse jardim mal cuidado que tanto piso. Daqui também retiro uma flor todos os dias para dar à minha amada. Esse velho que chora, luta! Como tantos, corre sobre a realidade, inconscientemente movido à incessante vontade de abraçar o mundo. Mas lamenta, que, no cômputo geral, esse mundo de faz-de-conta tem dado um cacete na realidade.

24 Outubro 2010

Aqueles dois

O início

Tudo foi muito rápido, alguns meses, um ano no máximo. Os encontros foram poucos até o dia do primeiro beijo, que os fez perder a razão e ababelou os sentidos. Para eles, naquele beijo foi zerado o cronômetro do seu tempo, como se o mundo começasse dali. Eles ainda não sabiam que a vida, a cada beijo e a cada lágrima, haveria de zerar os cronômetros, dando novo sentido aos sentidos.

A paixão

Ele guardou para sempre as luzes coloridas da festa. A fumaça, a roupa, a música, cada gesto dela era registrado enquanto ela dançava no meio da pista. Depois os outros beijos, iluminados pelo pôr do sol, o cabelo que deslizava sobre a testa, a voz suave, a pele branca, o sorriso doce. Tudo guardado para sempre. E sem projetos nem sonhos ele apenas curtia o calor que ela lhe dava no peito.

A separação

A vida era mansa quando o seu tempo parou outra vez. Uma ligação avisava que ela estava de partida, e ela partiu o seu coração. Ele se esquivou da tristeza indo atrás de novos beijos, e na medida em que os novos beijos perdiam a graça ele se lembrava dela. Via em outros o seu rosto, e carregou durante anos uma inexplicável sensação de que estavam prestes a se cruzar pela rua. Ela escondeu o medo de não vê-lo outra vez. Se procuraram. Cessaram as buscas.

O futuro

Adultos, eram muitas as lembranças que tinham um do outro, e eram raros os momentos em que eles as buscavam. Trabalho e filhos preenchiam todos os espaços, não restava mais tempo para restolhar as memórias, quase apagadas. Cada minuto tinha o poder de se tornar ainda mais exíguo.

O reencontro

Apenas se olharam, de longe. Observaram as mudanças que o tempo provocou em seus corpos. Ele a dirigiu a palavra, confuso. Inacreditável encontrá-la depois de tantos anos. Ela lhe sorriu aquele mesmo sorriso doce: “Quantas águas se passaram...” Em poucos minutos relembraram o beijo, a festa, o pôr do sol, a partida. E novamente partiram.

O fim

Durante dias pensaram nas águas que passam. Uma mistura de nostalgia e medo flanava em seus corações. E uma alegria discreta e dissimulada também se fez presente, chegou e partiu, apressadamente. E dela restou a descoberta de que "aqueles dois" morreram, embora continuassem cheios de vida.