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02 dezembro 2013
Sorriso de Filho pequeno
Não há nesse mundo melhor remédio para Pai que sorriso de Filho. Do sorrisinho discreto, daquele que repuxa de lado a boquinha ainda fechada, ao sorriso largo, com a bocona aberta prestes a morder o Pai, todos são milagrosos. E causam um vício deveras saboroso. Os olhinhos se fecham quase por completo, e da fresta que fica, irradiam uma luz branca que clareia a alma inteirinha do Pai bobão. A luz que vem, vertiginosa, espanta os bichos feios da vida que por lá esvoaçam, fazendo d’alma do Pai um palácio vistoso, quente, intocável, no meio de um paraíso ermo de paz.
Não há mal no mundo de Pai que resista a sorriso de Filho. Pesquisas sagradas revelam ainda que quanto menor o Filho, maior o poder do sorriso. Pai que ganha sorriso de Filho pequeno ao anoitecer, tem garantia de sono sereno e profundo, além de bons sonhos. Já o Pai que ganha sorriso de Filho pequeno ao amanhecer, tem chance zero de morrer de qualquer mal, embora, claro, há Pai que desejaria que o mundo acabasse naquele exato momento, para que morressem logo juntinhos, ali, daquele jeitinho, abraçados, com a alma eufórica do Pai toda iluminada, e aquele sorriso gostoso parado no tempo. Pobre Pai inquieto, ele sabe que os sorrisos são eternos, mas que logo deixarão de ser só seus.
28 outubro 2013
Um dedo médio levantado
Dia desses li, não sei aonde, um texto da minha querida
Carol Bensimon em que ela diz que a Literatura é a coisa mais transgressora
dos dias de hoje. Me lembrei disso hoje no fim da tarde, quando parei no
semáforo da Senhora do Carmo e fiquei ali, observando, no ponto de ônibus ao meu lado, várias pessoas
cansadas. Algumas de pé. Todas no celular. Ninguém olhava para o céu ou para o trânsito. Ninguém olhava o asfalto quente, sofrido,
cansado do peso dos carros e da vida. Ninguém pensava na vida, eu acho.
Esse é o nosso mundo. Você não pensa. Não dá tempo. E no que te sobra, você se distrai. Sempre. Apressadamente. Você não formula
mais frases, copia e cola. Não tem uma ideia, repete as prontas. Não conversa mais de dois minutos ao telefone com um amigo. Não
senta na porta de casa. Não vai a pé à padaria. Não visita suas tias. Não fecha os olhos para ouvir uma música.
E nesse seu mundo corrido, a minha Literatura, com suas fileiras eternas de folhas e palavras sem pressa, é realmente um dedo médio levantado para tudo isso à nossa volta.
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