Um grupo criado no Facebook para interação dos vários amigos que conviveram no Pentáurea dos anos 80 e 90, me proporcionou momentos de deliciosa nostalgia na tarde de hoje. Alguns amigos já distantes na minha memória foram voltando e restabelecendo o filme da minha vida pentaureana. Gente que como eu, conhece cada palmo daquele clube, do barranco dos bambus às trilhas de areia movediça. Uma geração incrível que não teve medo de polícia, mas aprendeu a ter medo de Seu Antônio. Mas depois falo disso.
Agora, importa registrar que o Pentáurea da minha época, antes de tudo, foi uma absoluta simbiose entre a vida e a juventude. Um cenário sem luxo nem requintes, de lembranças comuns e cotidianas numa época não menos carregada de circunstâncias afáveis, conquanto a inexistência do celular nos obrigasse a conversar uns com os outros.
Aquilo ali não era apenas um lugar bonito, verde, de friozinho gostoso à noite. Não se tratava apenas de um oásis de alívio para quem vivia no calor infernal e na sujeira de Montes Claros. O nosso Pentáurea era um universo paralelo onde todas os nossos anseios de liberdade, e todos os nossos medos, podiam ser testados.
E bastava atravessar a portaria para que não estivéssemos mais refugiados em nossos mecanismos de compensação. Ali não fazia diferença ser classe média, ser filho de funcionário do clube ou ser rico, ter um par de tênis Reebok ou Zaga, mochila da Company ou mochila jeans vagabunda, Dynavision III ou Supernintendo. Éramos todos iguais, portando nosso kit de sobrevivência: chinelos, moletons, barraca, travesseiro e cobertor. E daí que você fosse filho de deputado ou prefeito? Não. Único status possível ali, amigo, era ser filho do Diretor da semana.
Nas proximidades do campo intocável, todos acordavam bem cedo aos domingos, devido aos gritos dos peladeiros. Buiú e Tóla certamente tinham “super tweeters” na boca. Mas é necessário que se registre que, enquanto crianças pentaureanas, nossos ídolos ainda não eram Boiadeiro, Luisinho, Renato Gaúcho, Nonato ou qualquer jogador do Atlético (cuspe). Nossos craques eram Bracim, Kelé, Jarbas, Júnior Professor, Edgarzinho, Cássio, Tatu, Lalá, Chimbica e Rodrigo Macedo, entre outros que me falham agora. Meu Deus, como era bom de bola esse Rodrigo! (Me disseram que hoje ele virou “a bola”).
Já na turma dos "meninos da base", qualquer um apostaria que dali sairiam vários craques para o futebol europeu. Entre muitos, me lembro de Anísio, Teaguinho Aquino, Waguinho, Marco Pedro, Renatinho, Vinícius (meu irmão), Huguinho, Fredinho (meu irmão caçula), Gustavo, os irmãos Fabão e Flavinho Costa, Rodrigo, Túlio, Herbert, Churrasco, Pablo Mackenzie, Marcelo Bibop, Rafa Miadeira, os irmãos Tim e Rodrigo Barreto, Caio, Ignus, Danilo, Thomaz, os irmãos Fabricinho, Felipe, Fred e Gêra, Rafael Tatu, Marco Túlio, Lucas, Matheus, os trigêmeos, Saulinho e Juliano Maconha. A propósito, acho que já passou da hora de pararmos de usar esse apelido com o Juliano, até porque, se alguém na família Swertes já fumou maconha, o mais provável é que tenha sido o Ignus Swerts (mas acho que nem ele).
Voltando ao Pentáurea, por pelo menos dez anos não houve evento mais esperado e desejado que o feriado de Semana Santa no clube. Era inacreditável. Só não entrava nego de paraquedas. A cidade inteira se articulava para conseguir entrar. Não sobrava espaço nos gramados para montagem de barracas, nem nos porta-malas. As piscinas lotadas. Seu Antônio circulava pelo clube ao lado de seguranças, apanhando um a um os "penetras", exigindo documentos e explicações, que quase sempre não evitavam a expulsão do sujeito. Era comum ter um amigo expulso em meio à comoção geral. Corre daqui, corre dali, alguém implorava a ajuda de algum Diretor conhecido. Acho que o Seu Antônio não expulsava mulheres, a não ser as feias. Eu deduzia isso pelo número incontável de mulheres lindas espalhadas por todos os lados.
Drogas, que eu saiba, nunca rolou lá. Ouvi dizer que um loló apareceu uma vez. Vodka com Coca era comum. Sexo era difícil, mas alguns diziam ter conseguido. Um Miojo, na fome da madrugada, valia mais que uma peça de picanha maturada. No cômputo geral, amigos, uma acampada no Pentáurea da nossa época era a garantia de felicidade plena. Parafraseando Chico e Nonato Buzar em seu Rio Antigo, só quem viveu o que nós vivemos lá “pode entender o que é paz e amor”. Afinal...
Quem nunca pescou naquela lagoa contando pro amigo ao lado a história de um tal moleque que morreu afogado “ali, ó!” (apontando com o dedo)? Quem nunca escalou o Morro Vermelho e riscou o nome por lá, inutilmente, em alguma pedra de areia vermelha? Quem nunca entrou na fila interminável do “ping-pong” do início das noites frias? Quem nunca se amontoou no sofá de alvenaria da pequena sala de televisão pra ver novela? Quem nunca brincou de “detetive” na sacada do restaurante? Quem nunca desceu no escorregador de ferro da antiga piscina barrenta? Quem nunca pulou do toboágua? Quem nunca montou barraca entre os banheiros? Quem nunca se hospedou no “Carandiru”? Quem nunca cantou no torneio de karaokê? Quem nunca jogou peteca sob o sol de meio dia? Quem nunca tentou acertar o peso do almoço na promoção do restaurante? Quem nunca tentou ligar de graça no orelhão do capeta? Quem nunca foi ao almoxarifado pedir um colchão? Quem nunca pediu um açúcar “emprestado”? Quem nunca viu uma briga do Jaci na sinuca? Quem nunca foi chamado pelo sistema de rádio para atender o telefone, e teve que andar um quilômetro pensando que ia receber uma notícia trágica? Quem nunca dormiu na fila da secretaria pra pegar uma barraca? Quem nunca foi inquirido, pávido, por Seu Antônio, enquanto ele citava “de cabeça” o nome completo, CPF, RG, Pis-Pasep e os antecedentes criminais dos seus pais e avós?
Quem nunca se desculpou ao guarda noturno, segurando o riso? Quem nunca jogou no time de Elias? Quem nunca ouviu um “toca a bola, pirracento”? E quem nunca ganhou um apelido do Durval? Quem nunca comprou uma rifa do Maçarico? Quem nunca pegou uma bola com Seu Antônio do banheiro e só lembrou de devolver na hora de ir embora? Quem nunca arrepiou vendo de perto um solo do pandeiro de Bira? Quem nunca cantou “Vapor Barato” nos luaus da portaria e do mirante? E Faroeste Caboclo? E Tempo Perdido (putz!)? Quem nunca sofreu, no breu, um ataque de formigas? Quem nunca chamou o Juca? Quem nunca tomou banho frio? Quem nunca ficou puto com Messias roncando na sauna? E quem nunca ficou quase intoxicado com o excesso de essência? Quem nunca disputou um futsal com o ginásio lotado, jogado com raça de fazer espumar pela boca? E quem nunca assistiu ali uma final de Copa do Mundo? Quem nunca roubou abacaxi de madrugada? Quem nunca caminhou até o Posto Planalto, sem enxergar um palmo à frente, pra comprar bebida? Quem nunca dividiu o cobertor? Quem nunca flertou morrendo de frio antes da mãe da moça vir chamar pra dormir? Quem nunca beijou ardentemente ao som do vento? Quem nunca ficou até segunda, com vontade de ficar pra sempre?