Translate

22 agosto 2011

A arte de esperar

Nem sempre é doce a arte de esperar. Mas amargo mesmo, estou certo, é a indolência crescente que se percebe atrás dos balcões da vida. Após três semanas de expectativa meu processo fora indeferido pela Junta Comercial. A atendente, uma loirinha de cabelos pintados e escova progressiva, explicou-me o motivo apontando no documento os erros do contador. Com seus olhos mirando o balcão, e os dedos sórdidos batucando o teclado do computador, ela apertou com força o botão de chamada do painel. O apito soou, chamando o próximo da fila antes mesmo que eu saísse do lugar onde estava. Mal pude ouvir a última frase da moça, que se misturava com a música do painel.

Fui ao Gerente. Discursei como um ator a fim de amplificar o seu drama. Não adiantou. Não posso autorizar retificações à mão, ele disse. E sem me olhar, frio, cabisbaixo e carrancudo, terminou: "Mas autorizo acrescentar a palavra à máquina. Só que aqui não tem máquina". Sorri, claro. Pus-me a caminhar, restava-me pouco mais de quarenta minutos para retornar à Junta. Certamente a encontraria fácil em algum velho escritório das redondezas. Andei três quadras ao sair da Avenida Santos Dumond e virei na rua Rio de Janeiro, perguntando em cada porta por alguma velha máquina de escrever. Nada.

Cheguei ao exato centro da cidade, na Praça Sete, e parei de frente ao grande edifício Helena Passig. Entrei. No hall havia duas grandes filas que se formavam para os elevadores. Desviei e caminhei em direção à recepção imponente, protegida por um enorme balcão de madeira com adornos dourados. Do lado de cá do balcão estava o porteiro, um velho negro de terno e gravata, cabelos brancos, barba em dia. Com um largo sorriso ele gesticulava frente a uma elegante senhora cheia de jóias. A velha era resplandecente. Seus olhos verdes pequenos, quase fechados, disfarçavam um sorriso perdido no tempo, e as rugas não escondiam o rosto bonito, que certamente outrora perturbou corações penosos. Má que velha bonita, exclamei em silêncio a mim mesmo. Cheguei bem perto, calado, intencionalmente para interromper a conversa. Boa tarde, posso ajudá-lo, senhor? Perguntou-me o porteiro. Perdão, não queria interrompê-los, eu disse. Preciso desesperadamente de uma máquina de escrever. O senhor sabe se há alguma aqui no prédio? O velho virou-se para trás, mordendo o beiço com força enquanto fitava o painel de vidro na parede atrás do balcão. Aqui vai ser difícil encontrar, senhor. Conheço bem quase todas as salas e acho que todos só usam computador. Suspirei ofegante e o agradeci. Antes que eu me virasse fui tocado no ombro pela senhora. Eu sei onde você vai encontrar, rapaz. Ela me olhava nos olhos. Rua Tupinambás, quatrocentos e sessenta, edifício Soberano. Procure por Raimundo Monteiro no nono andar. Apertei a mão da senhora, perguntei-lhe o nome, agradeci e desci a rua a passos largos.

Era pequeno e bem judiado o edifício Soberano, embora não menos velho que o Helena Passig. O elevador, pequeno e barulhento, dava medo até no acessorista, que franzia a testa e puxava com força a alavanca cada vez que a grade da porta emperrava. Desci do elevador. O corredor era escuro. A porta logo adiante estava aberta, e uma luz fraca demarcava a sombra quadrada sobre o tapete vermelho. A sala estava impecável. O piso encerado brilhava, os velhos móveis de madeira reluziam e exalavam o cheiro do óleo de peroba. Espiei, procurando alguém. Bati com os dedos na porta e disse boa tarde em voz alta. E eis que ouço uma voz rouca responder boa tarde do fundo da sala. Dá licença, doutor Raimundo. Entrei, observando-o levantar da cadeira com um sorriso no rosto. Em que posso ser útil, meu filho? A cortesia do velho também era enternecedora. Esguio, ele usava um terno marrom, surrado, meio descorado de sol. A gravata era nova. Naquele prédio, aliás, de novo só havia a gravata do Seu Raimundo, com um perfeito nó de Pratt.

Pela pressa nem me apresentei. Retirei do envelope os meus papeis, perguntando-lhe sobre a máquina de escrever que estava ali na minha frente, sobre a mesa. E antes que eu terminasse a explicação ele já desembrulhava a máquina, ainda sorrindo, para depois puxar das minhas mãos as minhas folhas aflitas. Confirmou o texto a ser acrescentado, o lugar a bater, e bateu. Eram três folhas. Enquanto ele trabalhava na segunda eu ia contando o quanto caminhara até chegar lá. Ao mencionar o Helena Passig ele parou de sorrir, abruptamente. Ao dizer Celina Campos, gelei. O velho se levantou da cadeira. Arregalou os olhos. Celina Campos te mandou aqui, meu filho? Sim, seu Raimundo. Medo. Ele me encarava. Gente fina ela, não é? Eu disse, confuso. Muito. Você é o quê da Celina? Nada não, seu Raimundo. Ele olhou para a máquina. Perplexo, tentei decifrá-lo: É muito bonita ela, não é? Muito. Cada idade tem sua beleza, meu filho, mas o tempo não perdoa ninguém. Você esteve com Celina no Helena Passig? Foi, seu Raimundo, acabei de vir de lá, conversamos na recepção. Pálido, talvez trêmulo, o velho saiu em disparada pelo corredor do nono andar. Fiquei ali, sozinho, diante da máquina. Bati na terceira folha e corri. Na fila da Junta esperei, pensando nas esperas da vida. E pensei no Seu Raimundo, imaginando a possível amargura das suas esperas.