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24 janeiro 2009

Queridos amigos...

No início da tarde do dia 23 de Setembro de 2008 fui internado, em Belo Horizonte, com alguns leves sintomas de infarto (suor, náusea, palidez, debilidade, palpitação, vômito, dificuldade respiratória, opressão no peito, ansiedade, zumbido nos ouvidos e incapacidade de falar). Fui "atravessado" à frente de aproximadamente cem pessoas, o que me deixou ali a certeza de que o meu dia havia chegado. Não chegou. Após uma dezena de eletrocardiogramas e um atendimento maravilhoso da equipe médica, fui liberado pelos médicos no despertar da madrugada, com uma lista de recomendações e pedidos de exames. Sozinho, retornei ao hotel e pensei na vida, enquanto afastava o medo da morte.

QUERIDOS AMIGOS...
BH, 24/09/2008 - 02:20hs

Queridos amigos de bons corações, caso eu venha a faltar amanhã, peço que ouçam - e anotem - minhas recomendações. Saibam que amanhã mesmo, do infinito, os verei com um olhar ermo de paz, e conhecerei a dor indizível da ausência do carinho que se esvais. E inutilmente, implorarei a todas as divindades que me permitam tê-los um pouco mais.

Quando a Lua, essa fiel companheira do meu frágil coração, estiver radiante iluminando as estrelas, saiam pela noite com um velho violão, e cantem meus sambas por todos os cantos. Levem um bom vinho para aquecer suas almas, e se ao contemplá-la, por acaso cair uma lágrima, digam à minha amiga Lua que é apenas uma lembrança trazendo mais calma.

Se por acaso encontrarem a minha amada, mesmo sabendo que não havia fé em minh'alma, digam-na que a esperarei, em qualquer outra jornada. E se ela chorar, recolham as lágrimas em frascos pequenos, e me enviem depressa quando o seu pranto secar, pois eu, que já não tenho mais o seu sorriso, terei, ao menos, sua tristeza para guardar.

Procurem nos mais altos galhos, do meu velho quintal, os nomes riscados dos meus primeiros amores, e avisem sem pressa que não ando mais por aqui. Depois, revelem os meus segredos num bilhete com flores, dizendo que por elas eu também já sofri.

Digam à minha mãezinha que não embale os meus livros, para que não aprisione os meus versos mais queridos, dos meus poetas mais amigos. E peçam que eles não sejam distribuídos em vão, pois pior me seria aceitar que Machado estivesse em qualquer chão, e que Vinícius não estivesse lá – na velha estante – majestoso em seu eterno lugar.

Visitem os bares por onde andei, onde bebi minhas angústias, segurei meu choro, cantei, dancei, sorri. Bebam, sem moderação. E falem minutos intermináveis de todos aqueles assuntos, antes de cantarem bem alto um samba-canção.

Digam ao meu querido pai, que enquanto carreguei lucidez por aí, escondi do mundo a tristeza que viveu em mim. Que por aqui passou um poeta menor, que viveu em seu ser uma intensa viagem, que começou sem começo e terminou sem fim.


*Ainda não fiz os exames médicos solicitados. Mas graças a Deus, aumentei consideravelmente a carga de trabalho, o consumo de álcool, de açúcar e de picanha maturada. Por favor, sei que são muitas, mas anotem as minhas recomendações.

19 janeiro 2009

Seu gato no telhado

Seu gato no telhado

Atendendo ao apelo carinhoso de alguns grandes amigos (quase fui subornado), cá estou novamente a falar de gato. A história contada em meu último texto, que relata um caso de redenção do pobre animal ora tão em voga, despertou lembranças que nos remetem a preocupações legítimas da nossa atualidade. Hoje minhas linhas são dirigidas, principalmente, a você leitor que está empregado. Bem ou mal empregado. Saiba que em momentos de crise global a chapa esquenta da tarde pra noite, e o seu gato pode subir no telhado. Você leitor que está desempregado (ou melhor, disponível), atente-se também às minhas dicas, para que, quando conquistada uma oportunidade, ela não seja ameaçada pelo desconhecimento dos meus avisos prévios. Acredite, o seu gato certamente poderá subir no telhado.

Mas faz-se necessário esclarecer a todos – empregados e “disponíveis” – o significado do termo “gato no telhado”. Trata-se de uma expressão popular de origem desconhecida pelo autor, mas que foi trazida ao sertão norte-mineiro por um carioca ilustre, Seu Annibal, homem dos sete instrumentos (como dizia o Poetinha), um músico adormecido em sua sensibilidade, capaz de tocar o “Tico-Tico no Fubá” com duas tampas de garrafas. Para melhor entendimento do termo, trago um breve relato para ilustrar o que geralmente ocorre em vias de utilização do mesmo.

Vários meses já haviam se passado quando o Seu Annibal, Gestor de alto escalão, enviara ao interior um Executivo (este de baixo escalão mesmo) a fim de prestar, apoiado em sua longa experiência profissional, um atendimento comercial na micro-região previamente estabelecida. Por ser esta micro-região distante da sede da empresa, demorou-se a saber das estripulias do sujeito nos cabarés da cidade, tal que as más línguas puseram-se todas a aumentar um ponto a cada dia, revelando ao Gestor informações – duvidosas – segundo as quais diziam que o executivo estava por se tornar sócio das melhores casas do ramo, dedicando-se a elas (às casas e às mulheres) quase que em tempo integral.

E não bastasse a preocupação do Gestor com o andar da carruagem, chegara de São Paulo um novo Diretor (de altíssimo escalão). Este, como todo bom paulista pronto a trabalhar quatorze horas por dia, pôs-se a tomar conhecimento de tudo e de todos que ali estavam, no mesmo barco. Pois às informações – duvidosas – trazidas ao Seu Annibal juntou-se o resultado negativo dos números apresentados pelo Executivo no exercício de suas funções, e o mesmo foi chamado a uma reunião pelo Diretor. A conversa foi rápida, a portas fechadas. E o que se sabe do seu teor, além do seu resultado, é graças ao que foi relatado pelo próprio Executivo ao Gestor.

Indignado e confuso, com a dicção altamente comprometida por um deslocamento mandibular, ele recorreu ao Seu Annibal para pedir melhores explicações e manifestar o seu protesto. E disparou:

- Pô Annibal, bringadeira! Eu nem gonheço esse cara, ele vem lá de Zão Baulo e me vaz viajar isso tudo pra me bergundar de gato, pô? Disse gui meu gato subiu no telhado! Eu nem gato tenho! Moro em abardamento e na minha casa nem tem delhado, pô! Bringadeira viu Annibal!

Pois o gato do Executivo subiu e caiu do telhado. Na mesma semana o sujeito estava “disponível” ao mercado, de malas prontas para viajar de volta à sua cidade natal. Portanto, leitor, seguem minhas dicas para que o seu gatinho não suba no telhado:

Em primeiro lugar, tente se relacionar bem com "todas" as pessoas que fazem parte da sua empresa (isso requer basicamente ser educado e prestativo). Depois, concentre-se na busca pelos resultados positivos (sem eles não tem gato que não suba no telhado). Seja um profissional cada vez mais estudioso da sua empresa, do seu produto e do seu cliente (conheça-os cada dia mais). Seja uma pessoa humilde, sutilmente marcada pela modéstia (não uma modéstia como de comum, numa forma infame de vaidade). Queira mostrar serviço ao "seu" chefe, e não ao chefe dele. E por fim, algo que considero simples e especial (apesar de não estar na moda): Acredite em valores como a lealdade e a honestidade. E não abra mão deles.

11 janeiro 2009

O gato sinistro

Essa crônica é dedicada aos amigos Léo Braga, Jovanilson, Pipa, Bob e Edmilson (Cabeça).

O gato sinistro

Eles deram uma pequena pausa na conversa quando Bob percebeu, do outro lado da praça, um carro encostando, sem estacionar. Aderbal não desligou o veículo, apenas deixou em ponto-morto. Abriu a porta bruscamente, enquanto se movia dentro do carro na busca de algo que não se deixava dominar. Bob apontou a cena aos dois companheiros, Pipa e Cabeça, tão logo Seu Manoel, o dono do bar, postou mais uma garrafa de cerveja em cima da mesa. E seus olhares fulguraram por um instante aquele homem dentro do carro, até que logo reconheceram-no: Aderbal, tio do Pipa!

Após o intenso movimento dentro do veículo, os três espectadores vêem Aderbal esticar os braços para fora, efetuando o lançamento de algo facilmente identificado por eles. Era um gato. Aderbal expressava em seu rosto um misto de ódio, raiva e alívio: Enfim ficaria livre daquele gato. E arrancou o carro em alta velocidade, em retorno à sua casa no Bairro Todos os Santos. O animal permanecia lá, imóvel, com uma profunda tristeza, indefeso, no canto frio de um meio-fio largo.

Os três, do outro lado da praça, ainda sentados à mesa do Bar do Manoel – no Bairro de Lourdes, exatamente no ponto da cidade oposto ao Bairro do Aderbal – foram tomados por uma crise de risos, até que Bob, ainda sem fôlego, remete uma pergunta aos dois companheiros:

- Por acaso nosso bairro é lugar de jogar gato?

Ergueram-se os três em movimentos sincronizados. Em segundos, Cabeça ligou a motocicleta enquanto Pipa atravessava a rua, já com o gato nas mãos. Bob observava tudo do bar, sua missão era aguardar os companheiros e garantir ao Seu Manoel que o estabelecimento não sofreria calote.

Cabeça cortou a cidade em alta velocidade, carregando consigo Pipa e o gato, que nesse momento sorria um sorriso obsequioso, sentindo um carinho acolhedor, tal que pensou estar ali a sua tão desejada adoção. Não estava. Em minutos, ele (o gato) se via novamente na porta da casa donde saíra minutos antes, de carro, ouvindo, resignado, os resmungos e ofensas do incompreensível, mas não menos estimado Aderbal. Apesar de sua agilidade felina, não conseguiu se esquivar do arremesso feito por Pipa em direção à varanda da casa. Foi um vôo rápido e certeiro. Feito o arremesso, Cabeça e Pipa dispararam em retorno ao Bar do Manoel, preferindo um caminho que não permitisse o cruzamento, em trânsito, com o carro de Aderbal. E o gato permanecia lá, mais uma vez imóvel. Imóvel e triste.

Poucos minutos se passaram até que Aderbal chegasse, feliz e sorridente, à sua residência. Estaria “eternamente livre daquele gato nojento, folgado e traiçoeiro”. Pois enquanto estacionava com cuidado o carro na garagem, desejou naquele momento que o maldito fosse logo atropelado, para que outro infeliz não sofresse as conhecidas conseqüências de sua invasão domiciliar. Imaginou-o lá, sozinho, faminto, empoeirado, na beira da praça onde fora jogado. E sorriu. Saiu do veículo ainda sorrindo e andou passos curtos até o início da varanda da casa. Eis que, ao olhar para a porta não acreditou no que viu à sua frente: O gato!

Lá estava ele junto à porta a encará-lo nos olhos, temeroso e eriçado. Aderbal arrepiou-se fortemente os pêlos dos braços, seu coração bateu mais forte, alertado pelas forças do medo. Olhou em torno. O gato continuou parado à porta, o rabo espetado, o dorso em arco, numa atitude de pavor e defesa. E Aderbal, imóvel, pensava no poder sinistro do gato: “Meu Deus, esse bicho é o demônio!”. E assim permaneceram durante alguns minutos, sem saber o tamanho do medo que o outro sentia, até que o gato caminhou devagar, sem desviar o olhar, para o canto do muro lateral da casa, abrindo espaço à passagem do homem. Aderbal entrou em casa perplexo, aterrorizado. Cinco minutos depois foi servido ao gato um prato médio com sardinhas frescas, procedimento que se repetiria três vezes ao dia, a partir daquele momento.

Alguns dias depois, em visita ao Tio Aderbal, Pipa observava da janela o gato sorridente deitado na varanda:

- Poxa tio, como o gato está gordinho!
- Meu Deus do céu Pipa, sai daí dessa janela! Nem olhe pra ele meu filho, esse gato é do capeta!

08 janeiro 2009

Amor do meu Poema

Dedicado ao meu amor! Te desejo toda felicidade do mundo, Meu Anjo...


Amor à primeira vista pode ser que exista. 
Mas amor de verdade é do tipo do meu, que avisa que vem. 

Que acena de longe, e se aproxima, sorrindo, a passos de estações. 

Amor de verdade é assim que nem o meu, calado, cultivado, ganhado no tempo. 
Apego lento e desarmado, que confunde mas não se solta, se aventura mas não se rende. 

Que não embriaga nem ilude. Que desperta-se no plantar dos sorrisos, se aquece no enxugar das lágrimas. 

Amor de verdade é assim, que nem o meu, 
cristão, católico, permanente.