Das coisas boas da vida, uma das melhores é o papo no buteco com os amigos. De um desses surgiu a idéia de comentar a vida e as transformações que nos cercam, algo que caminha junto com a razão de ser desse blog. Como comentarista do cotidiano, trago em meu humilde breviário de histórias algumas observações acerca da nossa Montes Claros de hoje. Uma visão que abriga sensações dispersas, que se confundem entre o otimismo e o pessimismo. Que comenta o orgulho cívico pelo progresso, pela crescente verticalização da nossa cidade, dando menos atenção à sua periferização, ao desassossego recente das suas ruas, becos e praças. Não olhei fundo nas miudezas e circunstâncias da vida montes-clarense, mas decidi trazer uma modesta lembrança das mudanças mais recentes ao nosso redor, muitas às quais têm passado despercebidas aos nossos olhos.
Começo informando aos navegantes que Montes Claros perdeu a timidez. O “complexo-de-pobre” a que se sujeitava a Princesa do Norte não mais desanima os seus habitantes, embora muitos pessimistas da terra insistam em classificá-la como tal. Capitaneando uma população regional com mais de dois milhões de habitantes, Montes Claros respira ares de capital – porém com umidade relativa do ar na casa dos 10%, tipo deserto – e todos se orgulham da chegada do tão esperado progresso prometido. Desta vez não foi nenhuma Sudene. Vemos agora uma robusta indústria da Educação, um consolo providente e um belo modelo de salvação para os milhares de combatentes das batalhas dos vestibulares públicos. Temos agora várias facilidades, quero dizer Faculdades, para absorver a gigantesca demanda reprimida de jovens e adultos ávidos por conhecimento, diploma e emprego (não necessariamente nesta ordem), disponibilizando ao mercado profissionais de todas as áreas, de todos as classes e com todos os níveis de qualificação. O grande número de profissionais de alto nível trazido dos grandes centros – pelas grandes empresas – também contribuem, anônima e discretamente, para a formação dos jovens profissionais que conseguem a sua colocação (como exemplo este humilde escriba). É mão-de-obra super qualificada a serviço da formação de um povo ainda em aprendizagem.
A Educação e o Comércio tem sido a nossa alavanca. Embora a seca continue castigando todo o sertão norte mineiro – nos últimos 23 meses foram 15 de seca e chuvas abaixo da média histórica, contabilizando uma perda de 190 mil cabeças de gado nos últimos dois anos – a economia de Moc City cresce bem acima da média nacional. Num intervalo modesto de cinco anos aportaram-se grandes redes varejistas, seis novas concessionárias de veículos, várias lojas de grifes, uma grande usina de Biodiesel e três grandes traficantes de drogas de São Paulo e Belo Horizonte. A cidade ainda ganhou uma escada rolante, para gáudio dos moradores do Major Prates e adjacências. Coisas de cidade grande!
E se o progresso se instala, é comum que as pequenas empresas sofram com a concorrência. No setor de entretenimento (não resisto à citação do exemplo), os antigos pequenos cabarés deram lugar a uma grande casa noturna que atualmente colore as noites montes-clarenses. Diz-se que o recinto abriga damas-da-noite sofisticadas, provenientes de várias partes do país, dançarinas do “belo” Funk carioca e das “espetaculares” coreografias do Axé baiano. Entre as principais atrações, comenta-se sobre os shows protagonizados por belas mulheres envoltas em cobras de verdade. Tá vendo? Coisas de capital.
Já a política em Moc City, não mudou muito nos últimos cento e cinqüenta anos, exceto pela alteração no número de eleitores e candidatos. Os clãs: Pereira, Ribeiro e Athaíde continuam jogando a dança-das-cadeiras e, sistematicamente, os principais disputantes dos principais cargos eletivos são sempre descendentes sanguíneos ou apadrinhados desses mesmos grupos tradicionais. Exemplo fidedigno foi a disputa do último pleito, onde os três principais candidatos assim poderiam ser classificados. Seguindo a mesma tradição política nacional, nossos políticos montes-clarenses passam de inimigos mortais a grandes aliados com uma facilidade religiosa.
E como em todas as cidades onde o progresso se fez presente, seja pela importância política-econômica do município, por sua localização geográfica, ou pela simples concessão divina representada pela herança de riquezas naturais, é impossível, graças a costumeira ausência de políticas públicas, evitar que junto ao crescimento não venham a violência, a desigualdade social, o caos no trânsito e a corrupção. Tudo isso também se faz presente na Moc City de hoje.
Por fim, informo ao amigo leitor que nos Montes Claros de hoje:
Não se dança mais um bolero tocado ao vivo no Xandú; Não se joga mais pelada na rua; O Redondo agora é quadrado; A Open House virou buteco; O Pilangos não é mais bem freqüentado; O Ateneu continua abandonado; O Cassimiro continua respirando; O Bonga continua vivo; A Tia Ceiça desapareceu; Cerveja gelada ainda se bebe no Soró (e no Mapa de Minas); Sanduíche ainda se come no Tonis (e no Jordan); O vagão só existe em cima dos trilhos; Feijoada ainda se come no Tip-top; A política ainda se discute no Café Galo (e no Skema Kente); O almoço ainda se come no Automóvel Clube (e no Favoritto); O mirante do Sapucaia não é mais ponto de sarro; A Copa TV Montes Claros agora é Copa Intertv; O Instituto E. C. agora é São Mateus; A famosa equipe do Biotécnico agora é Unimax (Mas o Dêra continua lá); A festa do Pentáurea continua com a mesma fila; Não se joga na Flamarion Wanderley sem autorização da favela; Montes Claros agora tem Axé Montes; O Axé Montes tem ensaio; A prefeitura ainda faz o Carnamontes; O Carnamontes continua tendo assalto; Música se ouve no Curral do Boi; Cachorro quente ainda se come no Zé; Pizza se pede na Doratta; Coberta Suja agora é Cidade Industrial; O Ribatejo não tem mais o mesmo charme; A Fujinor virou hipermercado; Tião Prates não quebra mais o galho; Juninho Moleque ainda pega as menininhas; Feira se faz pela internet; Balada agora é que é no Armazém; Churrasco ainda se come no Chimarrão; Sorvete ainda se toma na Doçura; Os luais no Pentáurea não são mais na portaria (e o Seu Antônio continua lá); A Minas Brasil abre uma loja por mês; O Mackenzie continua revelando craques; Cabelo ainda se corta no Juarez; Barba ainda se faz no Moisés; Roupa ainda se compra na Dr. Veloso; Caderno ainda se compra na Palimontes; Livro não se compra mais na Espaço Aberto; O centro agora é filmado; O Marista não consegue mais lotar as suas turmas; Bibop continua pegando pênaltis; Na Escola Técnica não estuda mais filho de pobre; O campeonato do Max-Min agora tem craque paulista; Sinuca ainda se joga no Chicão; Janjão ainda tem dezoito anos; Jovanilson continua gordo; O Rio Vieira continua poluído; Os pequenos traficantes foram mortos pelos grandes; As ruas foram sinalizadas; As praças foram reformadas; Os parques foram abandonados; Os vereadores foram presos; e acreditem: Tadeu vai ser prefeito novamente.
3 comentários:
Muito bom Gui. Vc retratou com perfeição a Montes claros atual! Muito bom!!! Só faltou falar de Tiana!kkk
en bien, morei aí há muito tempo. E , pelo visto, mudaram os doces. Já as moscas....Só falta Lindomar, Santoro, Ricardo Viana e Urublues continuarem tocando na noite heheh
Meus olhos encheram de água e meu peito é pisoteado pela saudade de uma época que não volta mais, quando li os nomes citados pelo "anônimo" pois morei nessa cidade de 1988 a 1993 e era exatamente o auge desses exelentes artistas,(Lindomar, Santoro, Ricardo Viana e Urublues)época ainda em que eles formavam o "EXPRESSO PROIBIDO" e por falar dessa banda não podemos deixar de lado o guitarrista Jobim, o rock o blues e a mpb tocavam ao vivo em todo canto.Hoje depois de 15 anos retornei à Moc pois minha família ainda moram aí fiquei contente revi muitos amigos fiquei contente também pelo crescimento pois no bairro em que morei e moram meus pais e irmãos ganhou hiper-mercado shoping-center e como sou antiquado, também fiquei triste pois a manga localizada ao fundo da rodoviária e que era o meu ponto de retiro para minhas reflexões agora é um bairro todo habitado, há fiquei mais triste ainda por saber que meus amigos,Ninha - Jessé - Joilson - Lúcio - Mailton - chello - Marcelo e Carlúcio, não se reúnem mais para tocar violão na casa da cara Fátinha e seu esposo Dinho e filhos.Foram bons tempos aqueles que hoje são recordações nostálgicas.
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