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11 janeiro 2009

O gato sinistro

Essa crônica é dedicada aos amigos Léo Braga, Jovanilson, Pipa, Bob e Edmilson (Cabeça).

O gato sinistro

Eles deram uma pequena pausa na conversa quando Bob percebeu, do outro lado da praça, um carro encostando, sem estacionar. Aderbal não desligou o veículo, apenas deixou em ponto-morto. Abriu a porta bruscamente, enquanto se movia dentro do carro na busca de algo que não se deixava dominar. Bob apontou a cena aos dois companheiros, Pipa e Cabeça, tão logo Seu Manoel, o dono do bar, postou mais uma garrafa de cerveja em cima da mesa. E seus olhares fulguraram por um instante aquele homem dentro do carro, até que logo reconheceram-no: Aderbal, tio do Pipa!

Após o intenso movimento dentro do veículo, os três espectadores vêem Aderbal esticar os braços para fora, efetuando o lançamento de algo facilmente identificado por eles. Era um gato. Aderbal expressava em seu rosto um misto de ódio, raiva e alívio: Enfim ficaria livre daquele gato. E arrancou o carro em alta velocidade, em retorno à sua casa no Bairro Todos os Santos. O animal permanecia lá, imóvel, com uma profunda tristeza, indefeso, no canto frio de um meio-fio largo.

Os três, do outro lado da praça, ainda sentados à mesa do Bar do Manoel – no Bairro de Lourdes, exatamente no ponto da cidade oposto ao Bairro do Aderbal – foram tomados por uma crise de risos, até que Bob, ainda sem fôlego, remete uma pergunta aos dois companheiros:

- Por acaso nosso bairro é lugar de jogar gato?

Ergueram-se os três em movimentos sincronizados. Em segundos, Cabeça ligou a motocicleta enquanto Pipa atravessava a rua, já com o gato nas mãos. Bob observava tudo do bar, sua missão era aguardar os companheiros e garantir ao Seu Manoel que o estabelecimento não sofreria calote.

Cabeça cortou a cidade em alta velocidade, carregando consigo Pipa e o gato, que nesse momento sorria um sorriso obsequioso, sentindo um carinho acolhedor, tal que pensou estar ali a sua tão desejada adoção. Não estava. Em minutos, ele (o gato) se via novamente na porta da casa donde saíra minutos antes, de carro, ouvindo, resignado, os resmungos e ofensas do incompreensível, mas não menos estimado Aderbal. Apesar de sua agilidade felina, não conseguiu se esquivar do arremesso feito por Pipa em direção à varanda da casa. Foi um vôo rápido e certeiro. Feito o arremesso, Cabeça e Pipa dispararam em retorno ao Bar do Manoel, preferindo um caminho que não permitisse o cruzamento, em trânsito, com o carro de Aderbal. E o gato permanecia lá, mais uma vez imóvel. Imóvel e triste.

Poucos minutos se passaram até que Aderbal chegasse, feliz e sorridente, à sua residência. Estaria “eternamente livre daquele gato nojento, folgado e traiçoeiro”. Pois enquanto estacionava com cuidado o carro na garagem, desejou naquele momento que o maldito fosse logo atropelado, para que outro infeliz não sofresse as conhecidas conseqüências de sua invasão domiciliar. Imaginou-o lá, sozinho, faminto, empoeirado, na beira da praça onde fora jogado. E sorriu. Saiu do veículo ainda sorrindo e andou passos curtos até o início da varanda da casa. Eis que, ao olhar para a porta não acreditou no que viu à sua frente: O gato!

Lá estava ele junto à porta a encará-lo nos olhos, temeroso e eriçado. Aderbal arrepiou-se fortemente os pêlos dos braços, seu coração bateu mais forte, alertado pelas forças do medo. Olhou em torno. O gato continuou parado à porta, o rabo espetado, o dorso em arco, numa atitude de pavor e defesa. E Aderbal, imóvel, pensava no poder sinistro do gato: “Meu Deus, esse bicho é o demônio!”. E assim permaneceram durante alguns minutos, sem saber o tamanho do medo que o outro sentia, até que o gato caminhou devagar, sem desviar o olhar, para o canto do muro lateral da casa, abrindo espaço à passagem do homem. Aderbal entrou em casa perplexo, aterrorizado. Cinco minutos depois foi servido ao gato um prato médio com sardinhas frescas, procedimento que se repetiria três vezes ao dia, a partir daquele momento.

Alguns dias depois, em visita ao Tio Aderbal, Pipa observava da janela o gato sorridente deitado na varanda:

- Poxa tio, como o gato está gordinho!
- Meu Deus do céu Pipa, sai daí dessa janela! Nem olhe pra ele meu filho, esse gato é do capeta!

2 comentários:

Anônimo disse...

KKKKKKKKKKKKKKK
Muito boa Gui...

Estou aguardando mais.

Abraços
Lé.

Anônimo disse...

Filho...
Fala sério, cê tava lá. Num tava?

Abração.