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20 maio 2009

Carta ao meu Psiquiatra

Ilmo. Doutor,

Venho pedir-lhe, em regime de urgência urgentíssima, que me mande uma prescrição. Não sendo possível mandar já, envia-me logo um pedido de internação. Está cada dia mais difícil suportar esse mundo decadente e chato, doutor. Talvez o leitor meu amigo que me lê esta carta, dirá que não posso, ou que não deveria, reclamar da vida; pois certamente como, bebo e durmo bem mais e melhor que muito escritor pobre coitado que vive por aí. Como não sou religioso, doutor, não precisa me dizer que acabo de cometer assim um pecado. Na verdade estou me lixando para os meus pecados. Cá entre nós, tenho certeza de que meia dúzia de boas ações hão de compensá-los até o fim do ano. E caso não dê certo, para salvar minha alma pagarei minhas promessas antigas de uma vez, e as novas antecipadamente.

Desculpe-me a falta de consideração, doutor, mas antes de encaminhá-lo esta carta e de torná-la pública, consultei o google para tentar descobrir a possível causa da minha ranzinzice. A “coisa” me corrigiu três vezes (“Você quis dizer...”) antes de detectar a minha doença, definindo-a como estresse; e concluiu o diagnóstico mostrando milhares de imagens desse país avacalhado. Mas você sabe, doutor, que essa não é a causa da minha moléstia, embora, de fato, essa merda de lugar tenha piorado a minha gastrite. Não precisa me sugerir que eu vá para outro lugar, só não o faço por não poder levar junto a jabuticabeira do meu quintal. Como todo mundo nesse circo, doutor, eu só me preocupo com o meu quintal. Não sei se estou doido, doutor, mas se for o caso não seria tão mal, pois se não me falha o olhar cínico (não o clínico), normal agora é quem fica doidão; A lucidez está em extinção, doutor!

Espero que iniciemos logo um tratamento intensivo, ou receberás tarde a notícia, talvez já pelo telejornal, de que agredi algum sujeito no trânsito, desses que nao dão passagem nem à própria mãe e ainda buzinam se você o fizer a outro. Torça para que não seja um motoboy, doutor; geralmente eles são maiores que a gente. Mas talvez o tema da notícia seja de agressão a algum político em praça pública. Olha, doutor, eu estou que não posso ver um político na minha frente. Senador eu receio querer matar na hora. E para os casos de cantores de Axé, vendedores de consórcios e pastores evangélicos, custo a prever minhas reações, doutor.

Por fim, embora o desengano possa ser outro engano, não vejo saída senão o caminho das palavras, doutor. Apenas o cortar delas me faz esquecer que nos tornamos ridículos reféns desse mundo movido pela vaidade. Peço responder-me logo, pois o caso é urgente e posso me tornar um escritor azedo com esse estresse vagabundo. Não me vejas pretensioso, mas poeta que se preze só trabalha bem com doenças nobres no coração e na alma. E caso queira enviar-me alguma grana, também será bem vinda, doutor, pois como o meu amigo PMC, já há algum tempo o meu saldo devedor supera o saldo do meu amor.

No aguardo.

6 comentários:

Jovanilson disse...

Ô filho...
Esse cara que tá doido aí é vc?
Moss cê tá doido demais. Depois quero conversar com vc para o que tá acontecendo.
Abração.

Anônimo disse...

... possível causa da minha ranzinzice..

Amei..Realemnte sua cara! hehehe

Bjoss!

Euller disse...

Gui, meu filho, nao se preocupe...vc ta é muito NORMAL,pois, se tivesse totalmente satisfeito ou indiferente à este caos que estamos vivendo, aí sim, seria preocupante. E quanto à encontrar um politico na rua, deixe o comigo...

Anônimo disse...

Gui, olha só o artigo A sordidez humana, Lia Luft...http://arquivoetc.blogspot.com/2009/05/lya-luft-sordidez-humana.html.
Os valores hoje estão distorcidos e apatia e indiferença reinante, é o''Normal''hoje em nossa sociedade.

Anônimo disse...

Você é realmente brilhante!

Guilherme de Castro disse...

Obrigado mãe!!!! (esse anônimo aí só pode ser minha mãe gente!!rs)