No início da tarde do dia 23 de Setembro de 2008 fui internado, em Belo Horizonte, com alguns leves sintomas de infarto (suor, náusea, palidez, debilidade, palpitação, vômito, dificuldade respiratória, opressão no peito, ansiedade, zumbido nos ouvidos e incapacidade de falar). Fui "atravessado" à frente de aproximadamente cem pessoas, o que me deixou ali a certeza de que o meu dia havia chegado. Não chegou. Após uma dezena de eletrocardiogramas e um atendimento maravilhoso da equipe médica, fui liberado pelos médicos no despertar da madrugada, com uma lista de recomendações e pedidos de exames. Sozinho, retornei ao hotel e pensei na vida, enquanto afastava o medo da morte.
QUERIDOS AMIGOS...
BH, 24/09/2008 - 02:20hs
Queridos amigos de bons corações, caso eu venha a faltar amanhã, peço que ouçam - e anotem - minhas recomendações. Saibam que amanhã mesmo, do infinito, os verei com um olhar ermo de paz, e conhecerei a dor indizível da ausência do carinho que se esvais. E inutilmente, implorarei a todas as divindades que me permitam tê-los um pouco mais.
Quando a Lua, essa fiel companheira do meu frágil coração, estiver radiante iluminando as estrelas, saiam pela noite com um velho violão, e cantem meus sambas por todos os cantos. Levem um bom vinho para aquecer suas almas, e se ao contemplá-la, por acaso cair uma lágrima, digam à minha amiga Lua que é apenas uma lembrança trazendo mais calma.
Se por acaso encontrarem a minha amada, mesmo sabendo que não havia fé em minh'alma, digam-na que a esperarei, em qualquer outra jornada. E se ela chorar, recolham as lágrimas em frascos pequenos, e me enviem depressa quando o seu pranto secar, pois eu, que já não tenho mais o seu sorriso, terei, ao menos, sua tristeza para guardar.
Procurem nos mais altos galhos, do meu velho quintal, os nomes riscados dos meus primeiros amores, e avisem sem pressa que não ando mais por aqui. Depois, revelem os meus segredos num bilhete com flores, dizendo que por elas eu também já sofri.
Digam à minha mãezinha que não embale os meus livros, para que não aprisione os meus versos mais queridos, dos meus poetas mais amigos. E peçam que eles não sejam distribuídos em vão, pois pior me seria aceitar que Machado estivesse em qualquer chão, e que Vinícius não estivesse lá – na velha estante – majestoso em seu eterno lugar.
Visitem os bares por onde andei, onde bebi minhas angústias, segurei meu choro, cantei, dancei, sorri. Bebam, sem moderação. E falem minutos intermináveis de todos aqueles assuntos, antes de cantarem bem alto um samba-canção.
Digam ao meu querido pai, que enquanto carreguei lucidez por aí, escondi do mundo a tristeza que viveu em mim. Que por aqui passou um poeta menor, que viveu em seu ser uma intensa viagem, que começou sem começo e terminou sem fim.
*Ainda não fiz os exames médicos solicitados. Mas graças a Deus, aumentei consideravelmente a carga de trabalho, o consumo de álcool, de açúcar e de picanha maturada. Por favor, sei que são muitas, mas anotem as minhas recomendações.
3 comentários:
Sem comentários...
E quando fará o que tem que ser feito???
Oi Gui já te disse que adoro ler suas crônicas né..
Mas esse caso aí foi meio sério hein..
Tá na hora de cuidar da saúde amigo..
Tô aqui te dando um puxão de orelha e dizer pra não brincar com isso..
No mais aguardo as próximas crônicas...
Beijos
Cara, vai ser mesmo difícil te esquecer. Porra, você deixou tanta tarefa pra gente fazer que, mesmo que não gostasse de você, ia mesmo preferir você bem vivo e até custearia os exames que tem de fazer e não faz! (risos)
Abraços
Postar um comentário