Seu gato no telhado
Atendendo ao apelo carinhoso de alguns grandes amigos (quase fui subornado), cá estou novamente a falar de gato. A história contada em meu último texto, que relata um caso de redenção do pobre animal ora tão em voga, despertou lembranças que nos remetem a preocupações legítimas da nossa atualidade. Hoje minhas linhas são dirigidas, principalmente, a você leitor que está empregado. Bem ou mal empregado. Saiba que em momentos de crise global a chapa esquenta da tarde pra noite, e o seu gato pode subir no telhado. Você leitor que está desempregado (ou melhor, disponível), atente-se também às minhas dicas, para que, quando conquistada uma oportunidade, ela não seja ameaçada pelo desconhecimento dos meus avisos prévios. Acredite, o seu gato certamente poderá subir no telhado.
Mas faz-se necessário esclarecer a todos – empregados e “disponíveis” – o significado do termo “gato no telhado”. Trata-se de uma expressão popular de origem desconhecida pelo autor, mas que foi trazida ao sertão norte-mineiro por um carioca ilustre, Seu Annibal, homem dos sete instrumentos (como dizia o Poetinha), um músico adormecido em sua sensibilidade, capaz de tocar o “Tico-Tico no Fubá” com duas tampas de garrafas. Para melhor entendimento do termo, trago um breve relato para ilustrar o que geralmente ocorre em vias de utilização do mesmo.
Vários meses já haviam se passado quando o Seu Annibal, Gestor de alto escalão, enviara ao interior um Executivo (este de baixo escalão mesmo) a fim de prestar, apoiado em sua longa experiência profissional, um atendimento comercial na micro-região previamente estabelecida. Por ser esta micro-região distante da sede da empresa, demorou-se a saber das estripulias do sujeito nos cabarés da cidade, tal que as más línguas puseram-se todas a aumentar um ponto a cada dia, revelando ao Gestor informações – duvidosas – segundo as quais diziam que o executivo estava por se tornar sócio das melhores casas do ramo, dedicando-se a elas (às casas e às mulheres) quase que em tempo integral.
E não bastasse a preocupação do Gestor com o andar da carruagem, chegara de São Paulo um novo Diretor (de altíssimo escalão). Este, como todo bom paulista pronto a trabalhar quatorze horas por dia, pôs-se a tomar conhecimento de tudo e de todos que ali estavam, no mesmo barco. Pois às informações – duvidosas – trazidas ao Seu Annibal juntou-se o resultado negativo dos números apresentados pelo Executivo no exercício de suas funções, e o mesmo foi chamado a uma reunião pelo Diretor. A conversa foi rápida, a portas fechadas. E o que se sabe do seu teor, além do seu resultado, é graças ao que foi relatado pelo próprio Executivo ao Gestor.
Indignado e confuso, com a dicção altamente comprometida por um deslocamento mandibular, ele recorreu ao Seu Annibal para pedir melhores explicações e manifestar o seu protesto. E disparou:
- Pô Annibal, bringadeira! Eu nem gonheço esse cara, ele vem lá de Zão Baulo e me vaz viajar isso tudo pra me bergundar de gato, pô? Disse gui meu gato subiu no telhado! Eu nem gato tenho! Moro em abardamento e na minha casa nem tem delhado, pô! Bringadeira viu Annibal!
Pois o gato do Executivo subiu e caiu do telhado. Na mesma semana o sujeito estava “disponível” ao mercado, de malas prontas para viajar de volta à sua cidade natal. Portanto, leitor, seguem minhas dicas para que o seu gatinho não suba no telhado:
Em primeiro lugar, tente se relacionar bem com "todas" as pessoas que fazem parte da sua empresa (isso requer basicamente ser educado e prestativo). Depois, concentre-se na busca pelos resultados positivos (sem eles não tem gato que não suba no telhado). Seja um profissional cada vez mais estudioso da sua empresa, do seu produto e do seu cliente (conheça-os cada dia mais). Seja uma pessoa humilde, sutilmente marcada pela modéstia (não uma modéstia como de comum, numa forma infame de vaidade). Queira mostrar serviço ao "seu" chefe, e não ao chefe dele. E por fim, algo que considero simples e especial (apesar de não estar na moda): Acredite em valores como a lealdade e a honestidade. E não abra mão deles.
2 comentários:
Essa foi realmente hilária, Gui!!!
Adorei mesmo, em especial as dicas, que você já enumerou pessoalmente pra mim, mas é sempre bom relembrar. Juro que um dia ainda vou conseguir colocar todas em prática!!!Rsrsrs
Na verdade, o Anibal fez uma adaptação, mas o termo é mais usado quando uma fabricade automóvel pretende tirar um modelo de linha mas ainda nao divulgou...ou esta em segredo. Aí o pessoal do ramo diz que tal modelo ja subiu no telhado. Claro que´é o mesmo que um aviso prévio....
Postar um comentário