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13 abril 2016

O Rio de Janeiro

Rio, 08 de Fevereiro de 2016.

Demorei dez anos para saber o que é BH. Eu me orgulho de poder dizer que escolhi BH pra viver. Escolhi mesmo. Olhei pro mapa do Google, pedi conta do emprego e fui. E deu certo, gras-a-Deus. Plantei amigos, me enraizei. Casei. Lá meu filho nasceu. Bradei aos quatro cantos que de lá só saia depois de morto. Pois é.

Demorei oito anos pra entender o Maleta, entende? Pra ser aceito na pelada do Betânia foram dez anos e média de três gols por partida. Foi sofrido. Aprendi a amar aquele povo desconfiado, mesmo sem nunca ter ganhado um único sorriso, um simples “bom dia” ou um mísero “obrigado” de qualquer caixa da padaria.

Agora cá estou vivendo no Rio de Janeiro. Não tive muita escolha. Ou vinha, ou não dava conta da Pampers Premium Care. Pois é. Dizer que eu já amo o Rio é forçar a barra. (Pô, tá de sacanagem?) Mas acho que já sei o que é o Rio. Olha o que aconteceu comigo.

Durante uns seis meses, acho que mais de trinta vezes, eu peguei o 368 no centro, ali próximo à Avenida Franklin Roosevelt, perto do aeroporto, em direção à Barra. Todas as vezes eu ganhava do motorista um sorriso, um bom dia e um obrigado.

Quase sempre eu ia ouvindo Caymmi, cantado por Marina de La Riva. Confesso que chorei. Na subida da serra, na Grajaú, eu sempre chorava. Dorival é foda. “Ah, se eu escutasse o que a mamãe dizia...”, “...Ah, essa saudade dentro do meu peito”. Mamãe. Saudade. Peito.

Mas daí que um dia eu tava lá, no ponto do ônibus, no centro. Dei sinal e o 368, vaziinho, não parou. Primeira vez que isso acontecia. Passou direto. Fiquei muito puto. “Filho da puuuta...”. Me acalmei vinte minutos depois, quando outro 368 apontou na esquina. Dei sinal e aquele parou. Enquanto contava as moedas eu ia resmungando para o motorista:

“Cê acredita que o filho da puta do seu colega que passou agora a pouco não parou quando eu dei sinal?”
E ele, após uma gargalhada espaçosa: “Rapá, o 368 não pode parar aqui não. Seu ponto é ali ó, você tem que andar mais uns 700 metros”. "Uai moço, mas eu já peguei esse ônibus aqui mesmo umas trinta vezes”. “É, irmãozinho, mas aqui não pode parar não. A gente para porquê a gente é sangue bom. Se o fiscal pegar eu perco a minha cesta básica, sabia?”.
Juro que naquela hora eu senti uma vontade irreprimível de dar um abraço (hétero) naquele sujeito. Aquele cara é o Rio de Janeiro.

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