Forza, Peter!
#Rio2016
Rio, 13 de agosto de 2016.
Fizeram um aglomerado de Food Trucks quase em frente ao Parque Olímpico, bem perto da minha casa. Ali na área do estacionamento da Droga Raia, na Abelardo Bueno. O lugar fica lotado madrugada afora. Atletas, jornalistas, turistas e cariocas curtem a magia do sereno olímpico.
Saí do trabalho às 21h00, após duas mensagens do meu amor lembrando do leite de Arthur. Passava das onze quando cheguei lá. O lugar já lotado. Nunca, nunca, nunca na minha vida eu vi tanta gente bonita num lugar só. Me enfiei na multidão, atravessei e entrei na farmácia. A fila estava enorme. Enquanto esperava eu assistia a cena que vou contar agora.
Lá fora, bem próximo à vitrine e colado à porta de entrada, um rapaz com agasalho da Holanda discursava para uma moça. Cismei que ele é atleta do ciclismo. Saradão, acho que um metro e noventa. Olhos azuis e cabelos muito loiros espetados pra frente. Boa pinta.
A moça, também com agasalho da Holanda, era absurdamente linda. Uma Gisele Bündchen com o rosto ainda mais bonito, só que com aquela bundinha de frango, assim pra dentro.
Ele gesticulava, nervoso. Os olhos marejados, coitado. E salivava em desespero com a reação dela. Porque ela simplesmente ria pra ele, calada, se movendo como que em câmera lenta, completamente alheia ao que ele dizia, jogando a cabeça lentamente para um lado e para o outro. Talvez tivesse fumado um artesanal. Ou talvez estivesse preparando um movimento de esquiva a uma possível tentativa de agressão ou de beijo. Quem sabe.
De repente ela dá de costas e deixa o ciclista falando sozinho. Deu quatro passos rumo a um grupo que estava perto. Vocês não vão acreditar. Ela estendeu a mão, ainda com aquele sorrisinho doce de Capitu holandesa, puxou o cara com agasalho da Itália e lascou-lhe um beijo fervoroso. Parecia que ia engolir o sujeito. (Não vou descrever o italiano, para não dizerem que a minha bicicleta solta a corrente; digo apenas que o filho da puta era boa pinta também). O outro continuava lá, estático, os olhos mais tristes do Rio 2016.
Paguei o leite e saí. Mirei no crachá do coitado. Se chama Peter. Vejam como são paradoxais as ironias da vida. Eu, quase gordo, quase careca, quase quebrado, que saí de casa às sete da manhã pra ralar em Del Castilho, e que às onze ainda tentava voltar pra casa, estava ali morrendo de dó do Peter.
A vontade que deu foi de dar um abraço (hétero) nele, e, com todo o peso da minha bagagem de vida sertaneja, dizê-lo meia dúzia de palavras de amigo, a fim de confortá-lo por aquela dor de corno, que é universal.
Talvez lhe dissesse: “Porra, Peter, levanta essa cabeça. A vida não é aquela descidinha de Grumari com a vista do Recreio, não, cara. A vida, amigo, é uma Ilha Stromboli cercada de desilusões por todos os lados”. E enquanto comíamos um hot dog gourmet de dez dólares, eu talvez lhe contasse um ou outro caso antigo lá de Minas.
Mas o leitinho estava comprado e o meu filhinho estava com fome. Entre chorar ele e chorar o Peter, chorou o Peter.
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